Neste domingo (11), o Brasil marca o Dia Nacional de Prevenção da Obesidade diante de um cenário muito diferente daquele de 2008, quando a data foi criada por lei. Em menos de duas décadas, a frequência de obesidade entre adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal mais que dobrou e chegou a 25,7%.
Em 2006, 11,8% dos adultos acompanhados pelo Vigitel estavam na faixa considerada obesidade. Em 2024, último dado consolidado da série histórica do Ministério da Saúde, o percentual chegou a 25,7%. O avanço foi de 13,9 pontos percentuais, ou aproximadamente 118% em 18 anos.
O excesso de peso cresceu na mesma direção. Passou de 42,6% da população adulta das capitais, em 2006, para 62,6% em 2024. Na prática, quase dois em cada três adultos pesquisados apresentavam Índice de Massa Corporal igual ou superior a 25 kg/m².
A obesidade, caracterizada epidemiologicamente em adultos por IMC igual ou superior a 30 kg/m², é uma doença crônica e multifatorial. Genética, metabolismo, condições socioeconômicas, ambiente alimentar, sono, prática de atividade física, saúde mental e acesso a alimentos de qualidade fazem parte de uma equação que não pode ser reduzida apenas à quantidade de comida ingerida.
“A obesidade é uma doença. Ponto”, afirmou Neuton Dornelas Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, durante audiência pública realizada na Câmara dos Deputados sobre o tema em outubro de 2025.
Mulheres chegaram a 26,7%
A trajetória da doença não é igual entre homens e mulheres.
Entre os homens das capitais, a frequência de obesidade passou de 11,4%, em 2006, para 24,4% em 2024.
Entre as mulheres, aumentou de 12,1% para 26,7% no mesmo intervalo.
No período mais recente analisado pelo Ministério da Saúde, entre 2019 e 2024, a prevalência entre as mulheres saltou de 20,7% para 26,7%.
Também chama atenção o avanço entre adultos mais jovens. Na faixa de 25 a 34 anos, a proporção com obesidade subiu de 18,9%, em 2019, para 25,2% em 2024.
O excesso de peso já atinge 41,3% dos adultos entre 18 e 24 anos das capitais. Entre 35 e 44 anos, são 69,2%. Na faixa de 45 a 54 anos, o índice chega a 70,3%.
Brasil tinha 96 milhões de adultos com excesso de peso
Quando o levantamento é nacional, e não restrito às capitais, a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE já havia mostrado a dimensão do problema.
Em 2019, cerca de 96 milhões de brasileiros adultos apresentavam excesso de peso, o equivalente a 60,3% da população adulta. A obesidade atingia 26,8%.
A diferença entre os levantamentos precisa ser considerada: a PNS tem abrangência nacional e coleta domiciliar, enquanto o Vigitel acompanha adultos das capitais e do Distrito Federal por meio de inquérito telefônico. Ainda assim, os dois conjuntos de dados apontam para a mesma direção: crescimento prolongado do excesso de peso e da obesidade no país.
Cerca de 200 doenças podem ser provocadas ou agravadas
A discussão não se resume ao peso corporal.
Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a obesidade pode provocar ou agravar cerca de 200 doenças e condições de saúde. Entre elas estão diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, problemas articulares e alguns tipos de câncer.
“A obesidade é uma doença que pode provocar ou agravar cerca de 2 centenas de outras doenças e tem repercussões em todo o corpo”, afirmou Neuton Dornelas Gomes na Câmara.
O presidente da SBEM também chamou atenção para outra consequência pouco mensurável pelos indicadores clínicos: o estigma.
Segundo ele, a obesidade pode estar associada a sofrimento psicológico e discriminação, além de limitar a qualidade e a duração da vida.
16,8 milhões de adultos com diabetes tipo 2
A conexão com outras doenças aparece nos números apresentados por especialistas ao Congresso.
Em audiência realizada em 2025, o cirurgião Álvaro Albano, representante do Conselho Federal de Medicina, informou que 16,8 milhões de adultos brasileiros viviam com diabetes tipo 2. Para 2030, a projeção apresentada era de 21,5 milhões.
No mesmo debate, Albano destacou que a obesidade aparece entre os principais fatores evitáveis relacionados ao desenvolvimento de câncer.
Segundo os dados citados na audiência, 13% dos cânceres no país estariam relacionados à obesidade.
Além de diabetes e câncer, o excesso de peso está associado a aumento do risco cardiovascular, hipertensão arterial, doença hepática gordurosa, apneia do sono e alterações musculoesqueléticas.
Crianças também entram na estatística
A preocupação começa antes da vida adulta.
Dados do Ministério da Saúde referentes a 2024 apontaram obesidade em 5,9% das crianças menores de cinco anos acompanhadas e em 14,6% daquelas entre cinco e nove anos.
O avanço precoce aumenta a preocupação porque crianças e adolescentes com obesidade apresentam maior probabilidade de permanecer com a condição ao longo da vida.
Além das repercussões metabólicas, a obesidade infantil pode estar ligada a problemas respiratórios, ortopédicos, hepáticos e psicológicos, além de bullying e isolamento social.
Por isso, especialistas têm chamado atenção para o ambiente em que a criança cresce — alimentação disponível em casa e na escola, publicidade de ultraprocessados, oportunidades para atividade física e segurança dos espaços públicos — em vez de colocar a responsabilidade exclusivamente sobre ela.
Ultraprocessados entram no centro do debate
O ambiente alimentar ganhou peso crescente nas discussões sobre prevenção.
O Ministério da Saúde recomenda que a base da alimentação seja formada por alimentos in natura ou minimamente processados, como arroz, feijão, verduras, legumes, frutas, ovos, leite e carnes, e que produtos ultraprocessados sejam evitados.
Na audiência da Câmara, Neuton Dornelas Gomes relacionou a evolução da obesidade também ao acesso facilitado a alimentos ultraprocessados.
“Prevenir a obesidade é possível, com alimentação saudável, com atividade física adequada, mas exige ações do Estado”, afirmou.
O argumento dos especialistas é que decisões individuais importam, mas são influenciadas por preço, oferta, publicidade, renda, jornada de trabalho, ambiente urbano e disponibilidade de alimentos.
Só 26,5% dos homens consomem frutas e hortaliças regularmente
Os próprios dados do Vigitel mostram algumas dessas dificuldades.
Em 2024, apenas 26,5% dos homens das capitais consumiam frutas e hortaliças em cinco ou mais dias da semana. Entre as mulheres, eram 35,5%.
Em alguns grupos, esse comportamento piorou.
Entre adultos de 35 a 44 anos, o consumo regular de frutas e hortaliças caiu de 32,5% em 2019 para 27,7% em 2024.
Os números ajudam a explicar por que a prevenção da obesidade não depende apenas de recomendações médicas isoladas.
Tratamento evoluiu, mas acesso continua desigual
A medicina também mudou rapidamente.
Medicamentos mais recentes para tratamento da obesidade, entre eles agonistas do receptor GLP-1 e combinações de mecanismos hormonais, elevaram de forma importante as possibilidades de perda de peso em determinados pacientes.
Álvaro Albano afirmou à Câmara que tratamentos medicamentosos atuais podem produzir reduções de aproximadamente 10% a 20% do peso corporal em alguns casos, enquanto procedimentos endoscópicos podem chegar a 15% a 17%. Já a cirurgia bariátrica pode proporcionar perdas entre 30% e 40%, dependendo do paciente e da técnica.
Os percentuais não significam indicação universal. A escolha depende do grau da obesidade, doenças associadas, histórico do paciente e acompanhamento profissional.
Ao mesmo tempo, há diferença expressiva de acesso.
Entre 2020 e 2024, foram realizadas cerca de 291 mil cirurgias bariátricas no Brasil, segundo números apresentados pelo representante do Conselho Federal de Medicina. Aproximadamente 260 mil ocorreram pela rede privada ou planos de saúde e 31 mil pelo SUS — uma cirurgia pública para aproximadamente nove realizadas fora do sistema público.
IMC ajuda, mas não conta toda a história
O Índice de Massa Corporal continua sendo uma das principais ferramentas populacionais para identificar excesso de peso.
O cálculo divide o peso, em quilos, pela altura ao quadrado. Em adultos:
IMC abaixo de 18,5: baixo peso
18,5 a 24,9: faixa considerada adequada
25 a 29,9: excesso de peso
30 ou mais: obesidade
Na prática clínica, porém, o número não deve ser analisado isoladamente.
Circunferência abdominal, composição corporal, exames laboratoriais, pressão arterial, presença de diabetes, histórico familiar, distribuição da gordura e outras condições de saúde ajudam a formar uma avaliação mais completa.
Uma lei de 2008 diante de números que continuam subindo
O Dia Nacional de Prevenção da Obesidade foi instituído pela Lei nº 11.721, sancionada em 23 de junho de 2008. O texto é curto: determina que 11 de outubro seja dedicado anualmente à conscientização sobre a importância da prevenção da obesidade.
Naquele momento, o Vigitel tinha acabado de começar sua série histórica. A obesidade atingia pouco mais de 10% da população adulta das capitais.
Dezoito anos depois, o percentual é de 25,7%.
No mesmo intervalo, o excesso de peso passou de menos da metade para quase dois terços dos adultos pesquisados.
Em números:
2006 — 11,8% dos adultos com obesidade
2024 — 25,7%
2006 — 42,6% com excesso de peso
2024 — 62,6%
Homens com obesidade em 2024 — 24,4%
Mulheres com obesidade em 2024 — 26,7%
Adultos de 25 a 34 anos com obesidade em 2024 — 25,2%
Adultos de 35 a 44 anos com excesso de peso — 69,2%
Adultos de 45 a 54 anos com excesso de peso — 70,3%
Crianças de 5 a 9 anos com obesidade em dados de 2024 — 14,6%
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