Meio Ambiente

Países pressionam ONU para adiar relatório global sobre mudanças climáticas

Paisagem afetada por seca (Foto: CSIRO/Divulgação via Wikimedia Commons)

Arábia Saudita, Rússia, Índia e China defendem que publicação passe de 2028 para 2029; nações vulneráveis temem prejuízo às negociações climáticas da COP33

Foto: CSIRO/Divulgação via Wikimedia Commons

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), enfrenta pressão para adiar a publicação de seu próximo grande relatório científico sobre o aquecimento global. O documento, conhecido como AR7, estava previsto para 2028, a tempo de contribuir para as discussões da COP33, mas alguns países defendem que o lançamento ocorra apenas em 2029.

A discussão ocorre durante uma reunião do painel em Adis Abeba, na Etiópia. Segundo o jornal britânico The Guardian, Arábia Saudita e Rússia lideram a pressão pelo adiamento, acompanhadas por Índia e China.Esses países argumentam que um prazo maior permitiria ampliar a participação de nações em desenvolvimento na produção científica.

A reivindicação se baseia na crítica de que a pesquisa climática internacional tem sido historicamente dominada por instituições e países do hemisfério Norte, especialmente Estados Unidos, Reino Unido e integrantes da União Europeia.

Países vulneráveis contestam possível adiamento

A proposta enfrenta resistência de países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. Representantes de 34 integrantes da Coalizão de Alta Ambição, além da União Europeia e do grupo dos países menos desenvolvidos, defenderam acelerar a publicação do relatório.

Para essas nações, o acesso às conclusões científicas atualizadas é fundamental para orientar decisões sobre redução de emissões, adaptação e financiamento climático.

A ministra Jess Gasper, das Ilhas Marshall, afirmou que interesses políticos não devem determinar quais evidências científicas serão consideradas pelo mundo. Já o ministro do Meio Ambiente de Serra Leoa, Jiwoh Emmanuel Abdulai, destacou que o Acordo de Paris depende da ciência mais atualizada para orientar as negociações internacionais.

Relatório é importante para a COP33

O AR7 reunirá uma avaliação abrangente do conhecimento científico disponível sobre a crise climática. Sua publicação está prevista para coincidir com o período de preparação para a COP33, cúpula da ONU programada para 2028.

O encontro deverá avaliar o avanço dos governos no cumprimento das metas do Acordo de Paris, que busca limitar o aumento da temperatura média global e reduzir os riscos associados ao aquecimento.

O adiamento poderia fazer com que as negociações ocorressem sem as conclusões do novo relatório. Especialistas alertam que isso dificultaria a avaliação das políticas climáticas em um momento de aumento das emissões e de impactos cada vez mais visíveis, como ondas de calor, enchentes e secas.

O relatório anterior do IPCC foi publicado em três partes, entre 2021 e 2022, e apontou que reduções rápidas das emissões são necessárias para limitar os impactos mais graves e potencialmente irreversíveis da mudança do clima.

A controvérsia também expõe divergências sobre como tornar a produção científica internacional mais representativa. Claudio Angelo, do Observatório do Clima, no Brasil, reconheceu que os modelos climáticos desenvolvidos principalmente no Norte global podem apresentar vieses, mas questionou se adiar o relatório resolveria esse problema.

O IPCC tem como princípio conduzir suas avaliações com independência científica. Entretanto, os resumos destinados aos formuladores de políticas passam por aprovação dos governos participantes, o que torna o processo suscetível a disputas diplomáticas.

Até a publicação da reportagem do The Guardian, o IPCC havia se recusado a comentar o impasse. O jornal informou que procurou Arábia Saudita, Rússia, China e Índia para obter posicionamentos.

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