O som é produzido em menos de um segundo: o leque é aberto com força e as hastes provocam uma batida seca, semelhante a uma palma amplificada. Conhecido como “clack”, o gesto ganhou espaço em festas LGBTQIA+, performances drag e ambientes ligados à cultura ballroom antes de aumentar sua presença em shows pop, blocos e festivais.
Não existem dados consolidados que permitam medir quantos leques desse tipo são vendidos no Brasil ou quanto seu uso cresceu. A expansão de visibilidade, porém, pode ser observada em grandes eventos e apresentações dos últimos anos. Segundo levantamento da CNN Brasil, o acessório se espalhou de forma mais intensa na década de 2010 e ganhou novo impulso depois da pandemia.
O leque em si é muito anterior à cultura das pistas. No Brasil, seu uso social ganhou força no século 19, depois da chegada da família real portuguesa. Ao longo do tempo, deixou de ser apenas objeto utilitário ou de vestuário e foi incorporado a diferentes formas de expressão.
Na cultura LGBTQIA+, passou a ter presença especialmente forte em boates, festas, apresentações drag e no ballroom. O gesto de abrir o objeto rapidamente passou também a pontuar poses, passos de dança e momentos específicos das músicas. O barulho provocado pelas hastes recebeu o nome de “clack”.
A ligação chegou ao mainstream de maneira mais visível na última década. Na Renaissance Tour, Beyoncé incorporou leques à performance de “Heated”, faixa associada diretamente a referências da cultura ballroom. Em 2024, o acessório apareceu em grande quantidade entre o público no encerramento da Celebration Tour, de Madonna, na praia de Copacabana. A apresentação de Lady Gaga no Rio também registrou milhares de fãs utilizando leques durante o show.
A circulação brasileira chamou atenção até de artistas estrangeiros. A cantora sul-coreana Heyoon, ex-integrante do Now United, contou em entrevista publicada neste ano que conheceu o hábito por meio de uma artista brasileira em São Paulo.
“Existe essa coisa chamada ‘clacking with the fans’”, explicou Heyoon ao mostrar um leque personalizado. Segundo ela, a referência veio da cultura de clubes brasileira e acabou inspirando a criação de seus próprios acessórios para apresentações.
O crescimento da prática também produziu um debate dentro das próprias pistas. O leque cumpre uma função evidente em ambientes quentes e cheios, mas o “clack” pode ser ouvido a vários metros de distância e, quando repetido durante uma apresentação musical, interfere no som para quem está próximo.
Essa discussão já chegou a festivais e casas noturnas no exterior. Em comunidades de música eletrônica, usuários frequentemente diferenciam o ato de utilizar o leque para produzir vento do hábito de abri-lo repetidamente para provocar o estalo. DJs também passaram a comentar o assunto. Em entrevista ao Tiny Table Radio, integrantes do projeto Sanvero foram diretos ao falar de etiqueta de pista: “Don’t fan clack.”
O tema ganhou dimensão acadêmica em 2026. Neal A. Lester, professor da Arizona State University, publicou no The Journal of American Culture um estudo sobre leques, identidade e manifestações culturais em comunidades negras nos Estados Unidos. O trabalho foi motivado, entre outros episódios, pela decisão da Carnival Cruise Line de restringir “clacking fans” em pistas internas de seus navios.
Para Lester, a discussão é maior do que o próprio objeto. Em entrevista à rádio pública KJZZ, ele afirmou que a questão se tornou “mais do que sobre um leque e uma dança”. O pesquisador relaciona o acessório também à história dos leques utilizados em igrejas e encontros comunitários negros nos Estados Unidos.
O uso no Brasil possui contextos diferentes e está particularmente associado à cultura de festas, drag e eventos pop. A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo está entre os locais em que o objeto aparece de forma recorrente, tanto pela utilidade contra o calor quanto pelo caráter performático.
A presença em grandes shows ampliou ainda mais essa circulação. Madonna levou cerca de 1,6 milhão de pessoas à praia de Copacabana em 2024, segundo estimativas da Prefeitura do Rio na época, e o espetáculo teve “Vogue” entre os momentos diretamente ligados à cultura ballroom. Os leques apareceram em diferentes pontos da plateia durante a apresentação.
