O avanço do El Niño aumenta a preocupação com a safra brasileira 2026/27. O fenômeno tem probabilidade superior a 95% de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro e pode estar entre os mais intensos registrados desde 1950, segundo boletim do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Confirmado em junho, o El Niño deve permanecer ativo pelo menos até o início de 2027. No fim de setembro, as anomalias de temperatura da superfície do Oceano Pacífico superaram 2°C em áreas de referência.
O impacto esperado varia pelo país. A previsão aponta chuva acima da média no Sul e em partes do Sudeste, enquanto grande parte do Norte, Nordeste e áreas do Centro-Oeste podem enfrentar precipitações abaixo do normal e temperaturas mais elevadas.
A Embrapa alerta que o impacto sobre a produção dependerá não apenas da intensidade do El Niño, mas também da distribuição das chuvas e das decisões de manejo tomadas pelos produtores.
“Mesmo sendo um ano de risco, o produtor pode se precaver adotando, desde agora, diferentes práticas agrícolas que diminuam os efeitos deste fenômeno”, disse José Renato Bouças Farias, pesquisador da Embrapa Soja, em publicação oficial da Embrapa sobre a safra 2026/27.
Entre as recomendações estão o respeito às janelas de semeadura definidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), formação de palhada, escalonamento da semeadura e utilização de cultivares com ciclos diferentes.
“Uma das primeiras observações é o respeito aos períodos de semeadura preconizados pelo Zarc para as culturas de verão”, afirmou José Renato Bouças Farias, na mesma publicação da Embrapa.
Sul pode enfrentar chuva em excesso
Na Região Sul, a expectativa é de precipitações acima da média. A disponibilidade de água pode favorecer algumas lavouras, mas o excesso de umidade também aumenta riscos de erosão, dificuldade de operações no campo e ocorrência de doenças.
Na soja, chuvas frequentes associadas a calor podem favorecer problemas como ferrugem-asiática, mofo-branco, mancha-alvo, antracnose e doenças de final de ciclo.
O excesso de chuva também pode dificultar aplicações de defensivos.
“O manejo fitossanitário tem que ser muito mais racional. O produtor deve ficar atento para aplicar no momento adequado, porque senão joga dinheiro fora”, alertou José Renato Bouças Farias, pesquisador da Embrapa Soja, em material divulgado pela instituição.
Centro-Oeste pode ter atraso das chuvas
No Centro-Oeste, o risco está principalmente na irregularidade das precipitações e no possível atraso do início da estação chuvosa.
Segundo o Cemaden, a estação chuvosa na porção central do Brasil pode começar entre o fim de outubro e meados de novembro.
“Às vezes, o fenômeno provoca maiores temperaturas, menor umidade do ar e atraso no início das chuvas para a safra de verão na região Centro-Oeste”, explicou José Renato Bouças Farias, em declaração publicada pela Embrapa.
O atraso pode interferir na janela de plantio da soja e, posteriormente, reduzir o espaço disponível para a implantação do milho de segunda safra.
Especialistas também apontam preocupação com o milho de segunda safra em um cenário de chuvas mais irregulares.
“Anos de El Niño não são anos bons de safra no Brasil. Se você pegar historicamente, de 2005 para cá, todos os anos de El Niño foram anos de safra com problemas”, afirmou Marco Antônio dos Santos, sócio fundador e agrometeorologista da Rural Clima, em entrevista ao podcast Prosa Agro, do Itaú BBA.
Segundo ele, o risco não está restrito a Mato Grosso.
“Esse ano o risco é grande, a gente não descarta a possibilidade de quebras, não só em Mato Grosso, mas no Cerrado como um todo”, afirmou Marco Antônio dos Santos, na mesma entrevista.
Seca já avança em parte do país
Os sinais de estiagem já aparecem nos indicadores.
O número de municípios classificados em seca severa subiu de 153 em agosto para 197 em setembro. Os municípios em seca extrema passaram de quatro para 24. Entre assentamentos rurais, as áreas em seca extrema aumentaram de 32 para 90.
No centro-norte do país, a combinação de menos chuva e temperaturas mais altas pode afetar a germinação e o estabelecimento da soja, além de reduzir a qualidade das pastagens e a disponibilidade de água para rebanhos.
Apesar dos riscos, pesquisadores ressaltam que a ocorrência do fenômeno não significa automaticamente perda de produção em todas as regiões.
“Não existe um impacto certo em todas as regiões. Há sinais que são mais claros na região Sul e partes das regiões Norte e Nordeste do País. Mas na maior parte do Brasil há muita incerteza”, afirmou Aryeverton de Oliveira, pesquisador e assessor da Presidência da Embrapa, em publicação oficial da empresa.
Distribuição das chuvas, manejo, época de plantio, características do solo e escolha das cultivares poderão fazer diferença no resultado final.
O cenário, porém, coloca clima e planejamento entre os principais fatores a serem acompanhados durante o avanço da safra 2026/27.
