Saúde

Novo comprimido para obesidade amplia disputa dos medicamentos GLP-1

Foundayo (Foto: Lilly com ajuda da IA | Divulgação)

Aprovado nos Estados Unidos e Reino Unido, medicamento oral apresentou perda média superior a 10% do peso.

Foto: Lilly com ajuda da IA | Divulgação

Um novo medicamento oral para tratamento da obesidade começou a movimentar o mercado dominado nos últimos anos por opções injetáveis. O Foundayo, nome comercial do orforglipron, foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, em 1º de abril de 2026, para adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma condição relacionada ao peso.

A chegada do comprimido chama atenção principalmente porque ele é produzido pela Eli Lilly, mesma fabricante do Mounjaro. A associação entre os dois fez surgir expressões como “Mounjaro em comprimido”, mas os medicamentos são diferentes.

O Mounjaro utiliza tirzepatida e atua nos receptores de GIP e GLP-1. Já o Foundayo tem como princípio ativo o orforglipron, que atua no receptor de GLP-1. O primeiro é aplicado por injeção subcutânea semanal, enquanto o segundo é um comprimido de uso diário.

Quanto o Foundayo emagreceu nos estudos?

Um dos principais estudos utilizados para avaliar o orforglipron em pessoas com obesidade ou sobrepeso foi o ATTAIN-1. Na análise de eficácia, os participantes tratados com a maior dose perderam, em média, 12,4% do peso corporal em 72 semanas, o equivalente a aproximadamente 12,4 quilos. Cerca de 59,6% perderam pelo menos 10% do peso e 39,6% reduziram 15% ou mais.

Os resultados, no entanto, não significam que todas as pessoas que utilizarem o medicamento terão a mesma perda de peso. A resposta pode variar conforme condições individuais, dose, tolerabilidade, alimentação, atividade física e adesão ao tratamento.

“A obesidade é um desafio de saúde global e complexo, e os pacientes precisam de opções de tratamento que sejam eficazes e fáceis de integrar à vida cotidiana”, disse Sean Wharton, diretor da Wharton Medical Clinic e investigador principal do estudo ATTAIN-1, em declaração divulgada com os resultados publicados no New England Journal of Medicine.

Uma das principais diferenças do Foundayo em relação aos medicamentos injetáveis está na forma de administração.

A bula aprovada nos Estados Unidos determina uso oral uma vez ao dia, com ou sem alimentos. O comprimido deve ser engolido inteiro e não deve ser partido, triturado ou mastigado. O tratamento começa com 0,8 mg ao dia e pode avançar gradualmente para doses maiores, conforme resposta e tolerabilidade.

A possibilidade de tomar o medicamento por via oral pode ampliar as opções para pacientes que têm dificuldade ou resistência ao uso de injeções. Por outro lado, exige uma rotina diária, diferente dos medicamentos injetáveis de aplicação semanal.

Apesar da associação entre os dois nomes, o Foundayo não contém tirzepatida.

O medicamento é formado por orforglipron e pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1. O Mounjaro, por sua vez, utiliza tirzepatida e atua em dois receptores, GIP e GLP-1.

Por isso, chamar o Foundayo de “Mounjaro em cápsula” ou “Mounjaro oral” pode levar a uma interpretação equivocada. São medicamentos diferentes, ainda que produzidos pela mesma companhia e utilizados em áreas terapêuticas próximas.

Aprovação ocorreu em 50 dias

O Foundayo também chamou atenção pelo processo regulatório. Segundo a FDA, a decisão foi tomada 50 dias depois do protocolo do pedido, tornando-se a aprovação mais rápida de uma nova entidade molecular pela agência desde 2002.

“Essa aprovação demonstra o que a FDA pode alcançar quando eliminamos atrasos e priorizamos um trabalho rápido e rigoroso entre a agência e os parceiros da indústria”, disse Martin Makary, comissário da FDA, no anúncio oficial da aprovação do Foundayo nos Estados Unidos.

A FDA autorizou o medicamento em combinação com dieta de redução calórica e aumento da atividade física para redução e manutenção do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso e ao menos uma comorbidade relacionada ao peso.

O Foundayo avançou posteriormente para outro mercado importante. Em 10 de agosto de 2026, o Reino Unido se tornou o primeiro país da Europa a autorizar o orforglipron.

A Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA) aprovou o produto tanto para controle de peso quanto para melhora do controle glicêmico em determinados pacientes com diabetes tipo 2.

“Como acontece com todos os agonistas do receptor de GLP-1, a MHRA continuará acompanhando de perto a segurança e a eficácia do orforglipron”, informou a Medicines and Healthcare products Regulatory Agency, ao anunciar a autorização do medicamento no Reino Unido.

A declaração reforça que a aprovação regulatória não encerra o acompanhamento do medicamento. Segurança e efetividade continuam sendo monitoradas após a entrada no mercado.

Efeitos colaterais continuam no radar

A mudança da injeção para o comprimido não elimina os riscos e efeitos adversos ligados a medicamentos dessa classe. Nos estudos, os eventos adversos mais frequentes foram principalmente gastrointestinais, incluindo náusea, diarreia, vômitos e constipação.

A bula americana também traz advertências específicas e contraindica o Foundayo para pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. O uso conjunto com outro agonista de GLP-1 não é recomendado.

O medicamento é vendido apenas mediante prescrição nos Estados Unidos.

A aprovação nos Estados Unidos e no Reino Unido não significa autorização automática para venda no Brasil.

Para ser comercializado regularmente no país, o Foundayo precisa de registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Até o momento, não há aprovação pública identificada do medicamento para comercialização no mercado brasileiro.

O ponto é especialmente importante diante de anúncios informais de produtos apresentados como “Mounjaro oral” ou “tirzepatida em cápsula”. O Foundayo não é tirzepatida e qualquer medicamento vendido no Brasil depende das regras sanitárias nacionais.

A entrada do Foundayo acrescenta uma opção oral a um mercado que cresceu fortemente com medicamentos injetáveis, como Mounjaro, Zepbound, Ozempic e Wegovy.

A disputa tende a envolver não apenas quanto peso os medicamentos conseguem reduzir, mas também facilidade de uso, preço, efeitos adversos, disponibilidade e adesão dos pacientes ao tratamento.

A aprovação de um comprimido diário não transforma automaticamente o tratamento oral em substituto dos injetáveis. Ela amplia, porém, as possibilidades dentro de uma categoria que passou a ocupar espaço crescente no tratamento da obesidade.

A distinção mais importante continua sendo esta: Foundayo é orforglipron oral; Mounjaro é tirzepatida injetável.

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