A Mega-Sena acumulou novamente e o próximo concurso, marcado para quinta-feira (8), terá prêmio estimado em R$ 100 milhões. Nenhuma aposta acertou as seis dezenas do concurso 3.067, sorteado na terça-feira (6), em São Paulo (SP). Os números foram 01, 04, 17, 33, 41 e 52. A estimativa do novo prêmio é confirmada pela Caixa Econômica Federal.
Uma fortuna desse tamanho muda completamente a lógica de investimento. Mais do que buscar a maior rentabilidade possível, especialistas apontam que o principal desafio passa a ser preservar o patrimônio, manter liquidez e distribuir riscos entre diferentes tipos de ativos e instituições.
A recomendação ganha peso no atual cenário de juros. A taxa Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, segundo o Banco Central.
Se os R$ 100 milhões acompanhassem uma rentabilidade equivalente à Selic atual de 13,75% ao ano, o retorno bruto seria de aproximadamente R$ 13,75 milhões em um ano.
Considerando a equivalência mensal da taxa anual, o patrimônio produziria perto de R$ 1,08 milhão bruto por mês, sem que o ganhador precisasse consumir o valor principal.
Na prática, o resultado líquido depende do investimento escolhido, do Imposto de Renda, de taxas de administração ou custódia e do tempo em que o dinheiro permanecer aplicado.
Na poupança, com a Selic acima de 8,5% ao ano, a remuneração segue a regra de 0,5% ao mês mais Taxa Referencial. Só os 0,5% representariam R$ 500 mil por mês, aos quais ainda seria somada a TR. A poupança é isenta de Imposto de Renda para pessoa física, mas tende a render menos que alternativas ligadas aos juros básicos.
Já em um investimento que acompanhe aproximadamente a Selic, R$ 100 milhões poderiam superar R$ 1 milhão bruto por mês nas condições atuais.
Para quem recebe de uma vez um patrimônio que levaria décadas para ser construído, especialistas recomendam evitar decisões imediatas e manter parte relevante dos recursos em aplicações de alta liquidez enquanto a estratégia é definida.
“É sempre importante reservar uma parte para liquidez, seja em Tesouro Selic ou em um CDB com liquidez diária. Mas eu também diversificaria em dólar. É um bom momento para investir lá fora, pensando nos próximos cinco ou dez anos”, explicou Thiago Godoy, educador financeiro, em entrevista à CNN Brasil sobre estratégias para aplicação de grandes volumes de recursos.
A ideia é evitar que a busca por retornos maiores leve à concentração do patrimônio em produtos com risco elevado ou baixa liquidez.
Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb e apresentador da Resenha do Dinheiro, também defendeu uma postura de maior liquidez no cenário atual. “Eu concentraria uma parcela importante em ativos de liquidez diária, como o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva. Também manteria uma pequena parcela em títulos atrelados ao IPCA e em bitcoin e outras criptomoedas, mas com cautela”, afirmou Bernardo Pascowitch, em entrevista à CNN Brasil.
Inflação também precisa entrar na estratégia
Mesmo com R$ 100 milhões, deixar todo o dinheiro em produtos que não acompanhem a inflação pode reduzir o poder de compra da fortuna ao longo dos anos.
Para Marilia Fontes, economista e sócia-fundadora da Nord Investimentos, títulos públicos ligados ao IPCA cumprem uma função importante na preservação do patrimônio.
“O principal ativo de renda fixa para proteção contra a inflação é o título IPCA+. Levando o investimento até o vencimento, o investidor preserva seu poder de compra porque recebe a variação do IPCA acrescida de uma taxa real de juros”, explicou Marilia Fontes, economista, em entrevista à CNN Brasil.
A economista também cita fundos imobiliários como uma possibilidade para compor uma carteira diversificada.
“Os fundos imobiliários também funcionam como uma proteção contra a inflação, principalmente aqueles com receitas corrigidas por índices de preços”, afirmou Marilia Fontes, na mesma entrevista.
Não colocar R$ 100 milhões em um único CDB
Para um patrimônio desse tamanho, a escolha da instituição financeira também passa a ser relevante.
CDBs, LCIs e LCAs podem ter cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas a proteção é limitada. O fundo garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado financeiro, respeitando um teto total de R$ 1 milhão em garantias recebidas a cada período de quatro anos.
Isso significa que concentrar dezenas de milhões de reais em um único CDB apenas porque oferece uma taxa maior deixa a maior parte do patrimônio fora da cobertura do FGC.
Com R$ 100 milhões, a lógica deixa de ser procurar apenas “o CDB que mais rende” e passa a incluir risco de crédito, diversificação entre instituições e classes de ativos, prazos e necessidade de liquidez.
Tesouro também tem custos
O Tesouro Selic costuma aparecer entre as alternativas para recursos que precisam permanecer disponíveis, mas aplicações desse tamanho também exigem atenção aos custos.
O Tesouro Direto cobra taxa de custódia da B3 de 0,2% ao ano. No caso do Tesouro Selic, os primeiros R$ 10 mil por CPF são isentos e a cobrança incide sobre o valor excedente.
Em um patrimônio de R$ 100 milhões, portanto, taxas aparentemente pequenas passam a representar valores significativos e precisam ser consideradas na montagem da carteira.
Diversificação pode incluir dinheiro no exterior
Outra possibilidade para grandes patrimônios é distribuir parte dos recursos fora do Brasil.
A diversificação internacional reduz a dependência de uma única moeda e de uma única economia. Em 2026, especialistas do mercado passaram a defender exposição internacional como instrumento de redução de risco de concentração.
“Não é só buscar retorno, é reduzir risco de concentração em um único país”, afirmou Artur Wichmann, CIO da XP, durante o evento Onde Investir 2026, segundo o InfoMoney.
Para uma fortuna de R$ 100 milhões, isso não significa necessariamente transferir a maior parte do patrimônio ao exterior, mas incluir ativos internacionais dentro de uma estratégia mais ampla.
Prêmio da Mega-Sena já é pago líquido de IR
Outro ponto que costuma gerar dúvida é a tributação do prêmio. A Caixa informa que o Imposto de Renda sobre as loterias é retido na fonte. Portanto, o valor anunciado como prêmio a ser recebido pelo ganhador já corresponde ao montante líquido da tributação incidente sobre a premiação.
A partir do momento em que o dinheiro é investido, porém, passam a valer as regras tributárias de cada aplicação.
Com R$ 100 milhões, a principal diferença não está apenas em quanto o dinheiro pode render, mas na possibilidade de estruturar o patrimônio para que ele produza renda durante décadas. No atual nível da Selic, mesmo uma estratégia conservadora pode gerar centenas de milhares de reais por mês.
O maior risco, nesse caso, pode não ser ganhar pouco, mas tomar decisões rápidas demais com um patrimônio que não precisa correr riscos excessivos para continuar crescendo.
