Gastronomia

Do laboratório da UFV para o país: como o Doce de Leite Viçosa virou patrimônio gastronômico mineiro

Viçosa (Foto: Acervo pessoal | Divulgação)

Produto criado com apoio de pesquisa universitária bateu recorde de 3,4 toneladas em 2026.

Foto: Acervo pessoal | Divulgação

Um dos doces de leite mais conhecidos do Brasil não nasceu de uma receita secreta de família. Sua história está ligada a aulas práticas, pesquisa acadêmica e desenvolvimento de tecnologia de alimentos.

O Doce de Leite Viçosa começou a ser produzido dentro da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, instituição que completou 100 anos em 2026. A origem está em um laboratório criado para apoiar atividades de ensino e que posteriormente se transformou no Laticínio Escola da instituição. A UFV registra produção desde 1980; sua linha histórica aponta que o produto chegou ao mercado em 1988.

O que poderia permanecer como produto de um ambiente universitário começou a conquistar espaço fora do campus e passou a disputar concursos nacionais de lácteos.

Desde os anos 2000, o Doce de Leite Viçosa acumulou uma sequência de primeiros lugares no Concurso Nacional de Produtos Lácteos. A UFV registra títulos em 2001, 2004, 2006, 2008, 2011, 2012, 2013, 2015, 2016 e 2019. As avaliações são feitas às cegas por especialistas, considerando características como textura, aroma, sabor, consistência e aspecto visual.

A reputação ultrapassou o produto. Em 2023, Viçosa recebeu oficialmente o título de Capital Estadual do Doce de Leite, reconhecimento que relaciona a cidade à produção desenvolvida na universidade.

Em 2026, essa história ganhou um capítulo de proporções literais. Durante as comemorações dos 100 anos da UFV, foram preparados 3.400 quilos de doce de leite em uma única ação. O volume foi reconhecido pelo RankBrasil como maior doce de leite produzido no país.

A quantidade supera inclusive o atual recorde mundial registrado em Celaya, no México, que produziu 2.886 quilos em 2023. O reconhecimento internacional de Viçosa, porém, ainda depende de análise do Guinness World Records. O tamanho do evento ajuda a dimensionar a relação afetiva da cidade com o produto. Antes das 7h da manhã, moradores já formavam fila no campus para participar da distribuição realizada durante o centenário.

Demetrius David da Silva, reitor da UFV, sobre a celebração do centenário com o doce: “Se já somos reconhecidos pelo melhor doce de leite do mundo, nada mais simbólico do que celebrar o centenário da nossa instituição produzindo também o maior doce de leite do mundo.”

Do ponto de vista técnico, a UFV atribui parte da identidade da receita ao controle de produção e à ligação permanente com pesquisa acadêmica. A formulação tradicional utiliza leite e açúcar como base e, segundo a universidade, evita adição de amido e glicose de milho.

Essa combinação entre ciência e tradição é justamente o aspecto mais curioso da história. A gastronomia brasileira costuma valorizar narrativas familiares, receitas transmitidas entre gerações e produção artesanal. O Doce de Leite Viçosa mostra outro caminho.

”Quem estudou em Viçosa naquela época acompanhou de perto a força da universidade na pesquisa e na formação técnica. O doce de leite acabou se tornando um exemplo muito concreto dessa capacidade de transformar conhecimento produzido dentro da UFV em algo que ganhou reconhecimento fora dela e passou a fazer parte da própria identidade da cidade”, disse Segundo Perez, engenheiro agrônomo formado pela UFV na década de 1980.

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