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Milho sagrado volta a ser cultivado por comunidades Avá Guarani no Oeste do Paraná

Resgate de sementes tradicionais reúne conhecimentos indígenas e pesquisa científica; uma única espiga da variedade Saboró Preto deu origem a 60 novas espigas

Foto: Embrapa/Divulgação/Site Agência Gov

Comunidades indígenas Avá Guarani do Oeste do Paraná estão recuperando o cultivo de variedades tradicionais de milho associadas à alimentação, à espiritualidade e à identidade cultural.

A iniciativa envolve aldeias dos municípios de Guaíra e Terra Roxa e conta com apoio técnico da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e participação de pesquisadores e instituições acadêmicas.

O trabalho permitiu reintroduzir duas variedades consideradas sagradas pelas comunidades: o Saboró Branco e o Saboró Preto.

Além de recuperar sementes que haviam deixado de ser cultivadas em algumas aldeias, a iniciativa busca preservar conhecimentos tradicionais e fortalecer a autonomia alimentar dos povos indígenas.

Pesquisa identificou a perda de sementes tradicionais

O projeto começou após um diagnóstico realizado entre 13 e 15 de setembro de 2023 em nove aldeias de retomada Avá Guarani no Paraná. Participaram alunos, professores e o pesquisador da Embrapa Pantanal Alberto Feiden, que também atua no programa de doutorado em Desenvolvimento Rural Sustentável da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).

A demanda partiu do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA), de Marechal Cândido Rondon. Durante o levantamento, os participantes identificaram que as comunidades haviam perdido diversas variedades agrícolas tradicionais, incluindo milhos ligados às práticas espirituais.

Para recuperar as sementes, houve uma parceria com o banco de sementes da Escola Indígena Jaguapiru, localizada em Dourados, no Mato Grosso do Sul.

Uma espiga gerou 60 novas espigas

Um dos resultados registrados foi a multiplicação do milho Saboró Preto. A partir de uma única espiga, foram obtidas 60 novas espigas, distribuídas a outros três agricultores indígenas para dar continuidade ao cultivo.

A proposta é ampliar gradualmente a produção e reduzir o risco de desaparecimento da variedade. Os novos agricultores poderão multiplicar as sementes nas próximas safras e compartilhá-las com outras famílias.

O milho é utilizado em preparações como pamonha, rorá, canjica, chicha e milho assado ou cozido. Esses alimentos também estão associados a cerimônias e práticas religiosas das comunidades.

Para os Avá Guarani, portanto, a recuperação das sementes não se limita à produção agrícola: envolve a transmissão de conhecimentos entre gerações e a continuidade de costumes relacionados à alimentação e à espiritualidade.

Cultivo busca preservar as características das sementes

A produção foi organizada para reduzir o risco de contaminação por pólen de milho transgênico e diminuir a exposição a agrotóxicos utilizados nas lavouras vizinhas.

O plantio ocorreu em uma área mais baixa da aldeia, com maior umidade e distância de propriedades do entorno. As medidas procuram proteger as características genéticas das variedades tradicionais e facilitar a conservação das sementes pelas próprias comunidades.

Durante o desenvolvimento da lavoura acompanhada pelos pesquisadores, as plantas atingiram entre 1,80 e 2 metros de altura. Segundo o relato divulgado, não foram observados ataques de pragas nessa produção.

Após a colheita, as espigas foram mantidas sem palha e penduradas sobre o fogão, aproveitando a fumaça como parte do processo tradicional de conservação.

Para a próxima safra, a estratégia prevê dois plantios em períodos diferentes, com o objetivo de reduzir perdas provocadas por eventos climáticos. O planejamento também contempla a manutenção de sementes de reserva.

Milho está ligado ao modo de vida Avá Guarani

A iniciativa se relaciona ao conceito de Ñande Reko, expressão guarani que pode ser traduzida como “nosso modo de viver”. A expressão abrange práticas, conhecimentos e relações comunitárias que integram a vida cultural e espiritual dos povos Guarani.

O cacique Raúl Medina, da aldeia Tokoha YvY Raty Porã, destacou a importância da partilha na agricultura tradicional. Nessa perspectiva, o milho é cultivado principalmente para alimentar a comunidade e sustentar suas práticas culturais, e não para acumulação comercial.

A distribuição das sementes a outros agricultores contribui para ampliar a rede comunitária de conservação. Cada novo plantio pode gerar sementes para futuras safras e permitir que a variedade continue circulando entre as famílias.

A experiência mostra como a combinação entre conhecimentos indígenas, pesquisa e conservação de sementes pode contribuir para a continuidade de práticas agrícolas tradicionais.

No Oeste do Paraná, o retorno do Saboró Branco e do Saboró Preto representa também a preservação de um patrimônio cultural ligado à alimentação, à espiritualidade e à identidade Avá Guarani.

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