O atendimento às pessoas com obesidade representa um desafio crescente para o Sistema Único de Saúde (SUS). Em 24 das 27 unidades da Federação, os registros de adultos com a doença entre os pacientes monitorados pela atenção básica já superam os de pessoas classificadas com peso adequado. Em 18 estados, pelo menos sete em cada dez adultos acompanhados apresentam excesso de peso.
O Rio Grande do Sul possui a maior proporção de obesidade entre os pacientes monitorados, com 42,6%. São Paulo aparece na sequência, com 40,5%, seguido pelo Rio de Janeiro, com 40,1%.
Quando são considerados conjuntamente os casos de sobrepeso e obesidade, o Rio Grande do Sul também lidera, com 75,9%. O estado é seguido pelo Rio Grande do Norte, com 75,5%, e pelo Amapá, com 74,5%.
Os números fazem parte do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, e revelam a dimensão da demanda por atendimento na rede pública.
Falta de estrutura compromete o tratamento
O crescimento dos casos monitorados ocorre em meio a dificuldades para oferecer assistência adequada. Entre os problemas identificados por especialistas estão a escassez de medicamentos, a falta de protocolos abrangentes e a capacitação insuficiente dos profissionais de saúde.
O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), aponta que o SUS ainda não dispõe de linhas de cuidado suficientemente estruturadas para atender pessoas com a doença.
A cirurgia bariátrica, por exemplo, é indicada principalmente para determinados casos mais graves. O acesso ao procedimento varia entre as regiões brasileiras e pode envolver longas filas de espera.
Mesmo depois da operação, os pacientes enfrentam dificuldades para manter o acompanhamento. Entre as lacunas está a falta de fornecimento regular de suplementos polivitamínicos necessários no período pós-operatório.
Halpern também chama atenção para a pouca formação específica dos profissionais de saúde sobre obesidade. Segundo o especialista, existem iniciativas de atendimento de qualidade em algumas localidades, mas elas ainda não representam uma estrutura consolidada em todo o país.
Mais de 21 milhões de adultos apresentam excesso de peso nos registros
O levantamento do Sisvan contabilizou 11,12 milhões de adultos com obesidade em 2026, contra 3,09 milhões em 2016. O avanço foi de 259% em dez anos.
O número corresponde a aproximadamente 36,4% dos adultos acompanhados pelo sistema. Os dados mais recentes consideram os registros de janeiro a outubro deste ano.
O sobrepeso também avançou no período. Os registros passaram de 4,19 milhões, em 2016, para 10,76 milhões em 2026, crescimento de 156,8%.
Somadas, as duas classificações representam 21,88 milhões de registros, equivalentes a 71,5% do público adulto monitorado. Pela primeira vez na série apresentada, a quantidade de registros de obesidade ultrapassou a de sobrepeso.
Em números absolutos, São Paulo concentra o maior contingente de adultos com obesidade acompanhados pelo sistema, com 1,74 milhão. Minas Gerais aparece em segundo lugar, com 1,16 milhão. O Rio de Janeiro registra 759,2 mil, enquanto a Bahia contabiliza 735,3 mil.
É importante ressaltar que os dados se referem às pessoas acompanhadas pela atenção primária do SUS, e não a uma contagem de toda a população brasileira. O Sisvan reúne informações de diferentes sistemas de atendimento e pode registrar mais de uma avaliação antropométrica para uma mesma pessoa.
Obesidade aumenta riscos para a saúde
A obesidade é uma doença crônica, inflamatória e multifatorial, associada a mais de 240 outras condições de saúde. Entre os problemas relacionados estão doenças cardiovasculares e diferentes tipos de câncer, além da redução da expectativa de vida.
A classificação utilizada para adultos considera o índice de massa corporal (IMC), calculado pela divisão do peso, em quilogramas, pelo quadrado da altura, em metros.
Uma pessoa é classificada com sobrepeso quando apresenta IMC entre 25 e 29,9. A obesidade é identificada a partir de um índice igual ou superior a 30.
Os registros nacionais mostram que a participação da obesidade entre os adultos acompanhados pelo Sisvan passou de 25,1%, em 2016, para 31,9%, em 2022, chegando a 36,4% em 2026.
Pesquisa internacional aponta falhas nas políticas públicas
As dificuldades brasileiras fazem parte de um cenário mais amplo. Durante o XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado em Salvador entre 28 e 31 de outubro, foram apresentados resultados iniciais do estudo MAPPS II, desenvolvido pela Federação Mundial da Obesidade.
A pesquisa avalia a organização das políticas públicas de prevenção e tratamento em diferentes países. Entre os obstáculos identificados estão financiamento insuficiente, falta de equipes multidisciplinares, precariedade dos serviços públicos e preconceito contra pessoas com excesso de peso.
O apoio financeiro dos governos às ações de tratamento recebeu avaliações entre 1 e 3 pontos, em uma escala de 1 a 10. Segundo Halpern, a insuficiência de recursos faz com que muitos pacientes tenham de pagar pelo próprio tratamento, o que dificulta o acesso, sobretudo entre as populações de baixa renda.
O levantamento também identificou problemas de integração entre áreas governamentais, como Saúde, Educação e Economia. A falta de profissionais de diferentes especialidades prejudica a continuidade da assistência.
Brasil terá relatório específico sobre obesidade
O país é o que possui o maior número de participantes no MAPPS II e foi o único das Américas selecionado para uma etapa de investigação aprofundada.
A análise brasileira reúne informações de gestores públicos, profissionais de saúde, pesquisadores, representantes da sociedade civil e pacientes. O objetivo é identificar as principais barreiras ao atendimento e avaliar a organização das políticas de prevenção e tratamento.
Os resultados globais da pesquisa estão previstos para 4 de março de 2027, Dia Mundial da Obesidade. Um relatório específico sobre o Brasil também deverá ser divulgado ao longo do próximo ano.
Prevenção e assistência precisam avançar juntas
Para Halpern, o enfrentamento da obesidade depende de duas frentes complementares. A primeira envolve políticas de prevenção, com incentivo ao consumo de alimentos naturais e medidas para desestimular a ingestão de produtos ultraprocessados.
A segunda exige uma rede de atendimento capaz de acompanhar quem já vive com a doença. Isso inclui acesso a profissionais especializados, tratamentos adequados e continuidade da assistência.
O especialista afirma que a meta deve ser reduzir a velocidade de crescimento da obesidade no país e melhorar as condições de vida dos pacientes. Os dados do Sisvan mostram que o desafio já está presente em praticamente todas as regiões brasileiras.
