A produção dos sambas-enredo do Grupo Especial para o Carnaval 2027 ganhou um formato mais coletivo e próximo da energia da Avenida. Cada escola levou cerca de 60 integrantes para as gravações do álbum oficial, reunindo ritmistas, intérpretes, compositores, cavaquinistas, violonistas, integrantes da velha guarda, rainhas e casais de mestre-sala e porta-bandeira.
O trabalho ainda recebeu participações de nomes como Maria Bethânia, Alcione, Daniela Mercury, Leci Brandão, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Anitta e Martinho da Vila.
“Resgatamos o ao vivo, com todos os naipes gravando juntos. Isso deixa o álbum mais vivo”, afirmou Helio Motta, diretor-executivo da Edimusa, responsável pela produção.
A partir desse formato, a safra de 2027 chega com outra característica evidente: refrões curtos, de forte apelo coletivo, e letras marcadas por ancestralidade, religiosidade afro-brasileira, memória e personagens da cultura nacional. As 12 escolas já estão com suas obras definidas para os desfiles de 7, 8 e 9 de fevereiro, e o processo de escolha dos sambas somou mais de 3 milhões de visualizações na Rio Carnaval TV.
A concentração temática também chama atenção. Mangueira leva Oyá para a Avenida; Tuiuti retorna às origens do samba com Tia Ciata; Salgueiro revisita Xica da Silva; Viradouro parte da tradição oral dos griôs; Grande Rio olha para a relação entre Brasil e Gana; Vila Isabel transforma Torto Arado em samba; Portela celebra Monarco; e a estreante União de Maricá homenageia Darcy Ribeiro.
Algumas obras deixam evidente a aposta em frases de fácil assimilação. Na Beija-Flor, o chamado “Incorpora, caboclo!” conduz o refrão dedicado à pajé Zeneida Lima.
Na Mangueira, o impacto aparece em “Oyá Tetê, Oyá Tetê, Oyá”, trecho que já ganhou resposta forte da comunidade durante a disputa. O carnavalesco Sidnei França afirmou que a obra conseguiu transformar a proposta do enredo em uma musicalidade reconhecida pelo próprio morro. “É muito bonito ver toda a comunidade cantando”, disse.
O Tuiuti aposta no canto de afirmação de Tia Ciata: “Sou Yalodê, Yalodê Orô”. Já o Salgueiro transforma o próprio nome da homenageada em grito: “Laroyê! Xica da Silva!”.
Portela aposta na emoção de Monarco
A Portela segue por outro caminho. O samba dedicado a Monarco trabalha mais a emoção e a memória afetiva do que palavras de ordem.
O presidente Junior Escafura afirmou que a escolha praticamente unânime dentro da escola refletiu essa identificação. “É um samba que emocionou a escola, cresceu ao longo da disputa e chegou à final muito forte”, disse.
A gravação oficial reforça esse ambiente. Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Teresa Cristina, Diogo Nogueira, Tia Surica, integrantes da Velha Guarda e familiares de Monarco participam da faixa.
Viradouro tenta defender o título com oralidade e memória
Atual campeã, a Viradouro busca o bicampeonato com “Griô”. O samba escolhido trabalha a transmissão de conhecimento pela oralidade, memória africana e ancestralidade.
O presidente Marcelinho Calil destacou a aderência da obra ao tema. “Um parece que não representa, parece que ele é o enredo”, afirmou ao explicar a escolha.
O refrão final sintetiza essa proposta: “A Viradouro é sangue de griô”.
Literatura também ganha espaço
A literatura brasileira aparece com força na Vila Isabel e na Unidos da Tijuca. A Vila leva Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, para a Avenida. O samba selecionado nasceu de uma junção de duas composições e reúne nomes como Martinho da Vila, André Diniz e Evandro Bocão.
Já a Tijuca transforma A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, em enredo, partindo de uma história real ocorrida no Ceará e posteriormente levada à literatura.
Entre refrões de incorporação, louvação, memória e identidade, a safra de 2027 oferece um primeiro termômetro do que as escolas pretendem provocar na Avenida: transformar enredo em canto coletivo.
Os desfiles do Grupo Especial acontecem nos dias 7, 8 e 9 de fevereiro de 2027. O Sábado das Campeãs está marcado para 13 de fevereiro.
