O médico José Guilherme Caldas conhece a importância do tempo em duas situações muito diferentes: durante uma emergência neurológica e em uma travessia oceânica. Especialista em neurorradiologia intervencionista, ele passou cerca de oito meses disputando uma regata de volta ao mundo e transformou a experiência em uma campanha de conscientização sobre o acidente vascular cerebral (AVC). Agora, depois de participar de um congresso internacional na Coreia do Sul, prepara a edição do mesmo encontro científico que será realizada no Rio de Janeiro, em 2028.
Caldas esteve no 18º Congresso da Federação Mundial de Neurorradiologia Intervencionista e Terapêutica (WFITN), realizado entre 11 e 15 de outubro, em Busan. O encontro reuniu especialistas para discutir avanços em procedimentos utilizados no tratamento de doenças dos vasos sanguíneos do cérebro e da medula espinhal.
Professor livre-docente do Departamento de Radiologia da Universidade de São Paulo (USP), chefe do Serviço de Neurorradiologia Intervencionista do Hospital das Clínicas e profissional atuante no Hospital Sírio-Libanês, Caldas acompanhou debates sobre trombectomia, tratamentos de aneurismas, exames de imagem e aplicações de inteligência artificial.
“O que mais cresceu nesta área nos últimos anos foi exatamente o tratamento do AVC”, afirma.
A trombectomia mecânica é um procedimento minimamente invasivo utilizado em determinados casos de AVC isquêmico, quando um coágulo bloqueia uma artéria cerebral. Com auxílio de exames de imagem, especialistas utilizam cateteres para alcançar o vaso afetado e retirar o coágulo, buscando restabelecer a circulação sanguínea.
A indicação depende de avaliação médica, características do AVC e exames realizados em ambiente hospitalar.
Cada minuto conta no atendimento
A participação no congresso ocorre às vésperas do Dia Mundial do AVC, celebrado em 29 de outubro. Em 2026, a Organização Mundial do AVC mantém a campanha internacional “Cada Minuto Conta”, que incentiva a população a reconhecer os sintomas e buscar atendimento de emergência imediatamente.
Para Caldas, os avanços técnicos precisam ser acompanhados por melhorias na estrutura de atendimento, capazes de reduzir o intervalo entre o reconhecimento dos sintomas e o início do tratamento.
“Cada minuto conta, mas também cada minuto conta no próprio acesso, no próprio material que a gente tem para poder chegar mais rápido lá”, explica.
Entre os sinais de alerta do AVC estão fraqueza ou perda súbita de força em um lado do corpo, alterações na fala e assimetria facial. Os sintomas podem aparecer de forma repentina e exigem avaliação médica urgente, mesmo quando desaparecem depois de alguns minutos.
Da volta ao mundo à conscientização
A mensagem “Cada Minuto Conta” também acompanhou Caldas em uma atividade fora dos hospitais. Ao lado do velejador Luiz Bolina, o médico disputou a Globe40 2025/2026, regata de volta ao mundo realizada em barcos Class40.
A dupla brasileira conquistou o título da categoria Sharp e terminou em terceiro lugar na classificação geral, após aproximadamente oito meses de competição e mais de 30 mil milhas náuticas percorridas.
Durante a campanha, o Barco Brasil utilizou a visibilidade da competição para divulgar informações sobre prevenção e tratamento do AVC. A experiência também deu origem a um livro fotográfico e a um documentário intitulados “Cada Minuto Conta”, com primeiras exibições realizadas em julho, durante a Semana Internacional de Vela de Ilhabela.
Rio receberá especialistas em 2028
Presidente do congresso da WFITN de 2028, José Guilherme Caldas apresentou em Busan os preparativos da edição brasileira. A escolha do Rio de Janeiro como sede ocorreu durante a edição de 2024, em Nova York.
A expectativa apresentada pelo médico é reunir aproximadamente 1.200 participantes, entre pesquisadores, especialistas e profissionais dedicados ao diagnóstico e tratamento de doenças cerebrovasculares.

A programação deverá ampliar o intercâmbio científico e a discussão sobre procedimentos, tecnologias e evidências utilizadas nas decisões médicas.
O Dia Mundial do AVC será celebrado em 29 de outubro. Em caso de suspeita da doença, a orientação é acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo telefone 192.
O Barco Brasil é um projeto de vela oceânica formado por José Guilherme Caldas e Luiz Bolina, que combina participação em competições internacionais com ações de conscientização sobre o AVC. Além do Class40 151, utilizado na Globe40, a equipe conta com o Mussulo 50, o Tutatis e um HPE25. O projeto pretende capacitar novos velejadores brasileiros para a Globe40 de 2028/2029.
