Esportes

Paixão pelo mar atravessa gerações e transforma Regata Santos-Rio em tradição de família

Velejadores (Foto: Fred Hoffmann | Divulgação)

Histórias mostram como a travessia une esporte, aventura e memórias.

Foto: Fred Hoffmann | Divulgação

Algumas tradições de família começam à mesa, em viagens ou nas reuniões de fim de ano. Outras são construídas em alto-mar, entre mudanças de vento, noites de navegação e histórias compartilhadas a bordo. Para André Mirsky e Pierre Joullié, a Regata Santos-Rio faz parte dessas lembranças. Os dois aprenderam a velejar ainda crianças, acompanhando os pais, e descobriram que a experiência de atravessar o litoral brasileiro pode se transformar em um vínculo que passa de geração para geração.

Nesta quinta-feira (22), a competição chega à 76ª edição e abre o Campeonato Brasileiro de Oceano 2026. Organizada pela Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO), em parceria com o Iate Clube de Santos e o Iate Clube do Rio de Janeiro, a prova reúne tripulações com diferentes histórias e níveis de experiência.

No caso de André, a ligação começou com o pai, Sérgio Mirsky, recordista da Santos-Rio com 39 participações. Ainda pequeno, acompanhava os preparativos e as viagens necessárias para participar da competição. Ele calcula que tenha feito sua primeira travessia aos sete ou oito anos.

Naquela época, navegar significava observar, ouvir e aprender. Uma das lembranças mais antigas envolve uma largada sob chuva, ondas e vento forte de leste. Enquanto os adultos trabalhavam para reduzir as velas, André acompanhava tudo de perto.

“A única coisa que eu fazia era participar, não tinha nenhuma função a bordo, eu estava lá para aprender. E eu acho que eu aprendi muito”, recorda.

Mais do que um barco, uma família no mar

Para Sérgio Mirsky, a preparação de uma regata também era uma oportunidade de reunir pessoas. Ele incentivava os integrantes da tripulação a participar dos treinamentos e dos cuidados com o barco durante o ano, criando uma relação que ultrapassava as horas de competição.

“Ele fazia questão de manter o sentimento de ser o comandante de uma equipe, não de um barco, de um grupo de pessoas”, afirma André.

O aprendizado continua presente na trajetória do filho. Nesta edição, André participará da Santos-Rio no Bravo, um Soto 40, contribuindo com sua experiência para a adaptação da tripulação à embarcação.

“Eu acho que a vela precisa de renovação. No que eu puder contribuir para ele prosperar na vela, eu vou fazer isso.”

Três gerações dividem a mesma aventura

Se André cresceu ao lado de um recordista, Pierre Joullié viveu uma experiência que reuniu três gerações de sua família na mesma travessia.

Sua primeira Santos-Rio aconteceu em 1978, aos 14 anos, no High Tension, comandado pelo pai, Alain Pierre Joullié. O irmão Alainzinho, então com 15, também fazia parte da tripulação.

A estreia foi marcada por vento forte de sudoeste e dificuldades com os equipamentos. Em determinado momento, a pressão exercida pela vela de balão começou a arrancar peças do convés. Pierre precisou entrar na cabine para apertar as porcas e ajudar a conter o problema.

Quarenta e dois anos depois, em 2020, ele viveria uma experiência diferente. Na 70ª edição da Santos-Rio, comandou o Saravah acompanhado pelo pai, então com 85 anos, e pelo filho Philippe, de apenas 14.

“Tive o privilégio de correr no meu barco Saravah na companhia do meu pai Alain e do meu filho Philippe”, recorda.

A reunião familiar aconteceu em uma edição que exigiu bastante da tripulação.

“Lestada fortíssima, muita correnteza contra e um frio que nunca senti na Santos-Rio.”

Apesar das condições difíceis, o Saravah terminou a competição na segunda colocação da classe IRC. Para Pierre, que estima ter participado de aproximadamente 20 edições da prova, a travessia de 2020 está entre as lembranças mais especiais de sua trajetória.

O velejador também acumula experiências internacionais, incluindo travessias do Atlântico e o terceiro lugar geral em tempo corrigido na Cape to Rio de 2020. Sua história inclui ainda participação na gestão da modalidade, como diretor da regra IRC na ABVO.

O que faz alguém voltar ao mar?

Para quem nunca participou de uma regata oceânica, passar horas ou dias navegando pode parecer uma experiência distante da rotina. Diferentemente de um passeio de barco, porém, uma competição de longa distância exige planejamento, trabalho em equipe e decisões tomadas de acordo com as condições do mar e do vento.

Os participantes precisam lidar com mudanças no tempo, períodos de descanso limitados e tarefas compartilhadas. A convivência durante a travessia também aproxima pessoas de diferentes idades e experiências.

Na Santos-Rio, essa combinação contribuiu para construir histórias familiares como as de André e Pierre. Os dois representam uma tradição que começou muito antes de suas próprias estreias e que segue sendo transmitida a novos tripulantes.

A competição também está ligada à história da organização da vela oceânica brasileira. A necessidade de estruturar as provas contribuiu para a criação da ABVO, formalizada em 1955 e atualmente responsável por atividades técnicas, regras de classificação e apoio aos clubes organizadores.

Depois da Santos-Rio, o Campeonato Brasileiro de Oceano continuará com o Circuito Rio, programado para 30 de outubro a 2 de novembro.

Para André, a sensação de concluir mais uma travessia ajuda a explicar por que os veteranos continuam retornando.

“Você tem aquela satisfação de ter terminado”, diz André. “No ano que vem, quando alguém te chamar, você vai de novo. É assim que funciona. Pelo menos comigo.”

Fundada em 1955, a Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO) é o braço oficial da Confederação Brasileira de Vela (CBVela) para a modalidade. A entidade promove competições, administra regras de rating, representa a ORC no Brasil e oferece suporte técnico aos clubes.

A atual gestão é conduzida pelo comodoro Bayard Umbuzeiro Neto, com o bicampeão olímpico Torben Grael como primeiro vice-comodoro e Paulo Cezar Gonçalves, o Pileca, como segundo vice-comodoro.

As últimas

Para o topo