Saúde

Xadrez pode ajudar atenção, planejamento e flexibilidade cognitiva, mas efeitos variam entre os estudos

Xadrez (Foto: © Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Divulgação)

Atividade não substitui tratamento ou acompanhamento profissional.

Foto: © Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Divulgação

Sessenta e quatro casas, 32 peças e uma sequência praticamente ilimitada de combinações transformam o xadrez em uma atividade que exige planejamento, memória de trabalho, controle de impulsos, atenção e capacidade de mudar de estratégia diante das decisões do adversário. Essas características fizeram o jogo ganhar espaço não apenas como esporte, mas também em escolas, projetos educacionais e atividades voltadas à estimulação cognitiva.

A ciência encontra benefícios possíveis, mas também impõe limites às conclusões. Uma meta-análise publicada na revista Educational Research Review reuniu 24 estudos, 40 medidas de efeito e 5.221 crianças e adolescentes. O resultado apontou efeito geral de 0,34 sobre habilidades acadêmicas e cognitivas, considerado modesto. Em matemática, o efeito foi de 0,38; em leitura, de 0,25.

Os pesquisadores Giovanni Sala e Fernand Gobet observaram ainda que a duração do treinamento estava relacionada ao tamanho dos resultados. Revisão posterior dos mesmos autores indicou que algo entre 25 e 30 horas de instrução, aproximadamente uma aula por semana ao longo de um período escolar, aparecia como patamar mínimo para efeitos mais consistentes nos estudos analisados.

Isso não significa, porém, que aprender xadrez automaticamente aumente inteligência ou desempenho escolar. Os próprios autores chamam atenção para limitações metodológicas. Parte das pesquisas comparava alunos que participavam de aulas de xadrez com crianças que continuavam apenas a rotina normal. Assim, parte do ganho poderia estar relacionada à própria participação em uma nova atividade, à interação social ou ao maior contato com professores e colegas.

No Brasil, um estudo publicado em abril de 2026 avaliou um programa de xadrez integrado ao currículo do quinto ano de escolas públicas municipais do Rio de Janeiro. A pesquisa identificou ganho estatisticamente significativo em matemática entre 0,10 e 0,15 desvio-padrão, estimativa equivalente a aproximadamente um terço a metade de um ano típico de aprendizagem. Não houve efeito significativo em língua portuguesa.

Para a psicóloga Bianca Domingues, que atua com avaliação neuropsicológica e psicoterapia online pela abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental, parte do interesse do xadrez está justamente nas funções executivas exigidas durante uma partida.

“Quando a gente joga, sabe que precisa flexibilizar estratégias. Você está querendo fazer uma jogada e a pessoa adversária faz outra. Então precisa aprender a mudar essa estratégia. Quanto mais você treina isso no xadrez, mais trabalha a flexibilidade para mudar, alternar tarefas e rever planos também no dia a dia”, afirma em entrevista na Clinica Ser Medicina Integrativa, de São Caetano do Sul (SP).

A flexibilidade cognitiva é a capacidade de adaptar uma resposta ou estratégia quando a situação muda. No xadrez, isso acontece continuamente. Um jogador pode preparar determinada sequência, mas precisa abandoná-la quando o adversário responde de maneira diferente.

Outro ponto destacado pela psicóloga é o controle inibitório, função relacionada à capacidade de interromper uma resposta automática antes de agir.

“Você não pode simplesmente sair jogando. Precisa pensar no que vai fazer e tentar prever como o adversário pode responder. Isso trabalha o controle inibitório, porque você aprende a não fazer as coisas sem pensar. Quanto mais isso é treinado, mais o cérebro trabalha essas funções no dia a dia”, explica Bianca.

Pesquisas sobre desempenho enxadrístico também encontraram relação entre habilidade no jogo e diferentes capacidades cognitivas. Uma meta-análise publicada na revista Intelligence identificou correlações positivas entre nível de xadrez e raciocínio fluido, memória de curto prazo, velocidade de processamento e conhecimento adquirido. A correlação média ficou em torno de 0,24. A associação com habilidade numérica foi mais alta, de 0,35.

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que correlação não significa necessariamente que o xadrez tenha causado essas habilidades. Pessoas com determinadas capacidades cognitivas também podem ter maior facilidade para aprender e evoluir no jogo.

Xadrez também é estudado entre idosos

O interesse científico não está restrito às crianças. O estudo COGniChESs, publicado em 2026, avaliou pessoas com 55 anos ou mais que apresentavam comprometimento cognitivo leve ou queixas subjetivas de declínio cognitivo. Os participantes foram divididos entre grupos de xadrez, Go e lista de espera e realizaram 12 sessões semanais. Sessenta e nove pessoas completaram o estudo.

Os grupos que participaram dos jogos apresentaram melhora significativa em fluência categórica, mas não houve diferença entre os grupos em cognição global. Entre participantes com comprometimento cognitivo leve, os pesquisadores encontraram melhora na qualidade de vida. Entre mulheres, houve redução de sintomas depressivos.

Bianca relata que já acompanhou clinicamente um idoso que jogava xadrez regularmente e posteriormente apresentou queixas relacionadas a um quadro demencial. Segundo ela, apesar das dificuldades em memória e atenção, funções ligadas a planejamento, flexibilidade e controle cognitivo estavam preservadas.

“O nosso cérebro é plástico. Quanto mais você treina determinada função, mais ele aprende a trabalhar aquilo. O xadrez mantém a cabeça ativa e pode ser uma atividade importante dentro desse contexto de saúde mental e bem-estar”, afirma.

O relato clínico não significa que o jogo impeça demência ou preserve sozinho determinadas funções cognitivas. Casos individuais não permitem estabelecer causa e efeito, e o xadrez não é reconhecido como tratamento para doenças neurodegenerativas.

A exigência de antecipar cenários fez o xadrez entrar também em discussões sobre preparação mental no esporte. Durante uma partida, o jogador precisa analisar opções, estimar consequências e tomar decisões sob pressão de tempo. Essas características se aproximam de demandas presentes em modalidades que exigem leitura rápida de jogo e adaptação constante.

“Tomada de decisão, velocidade para entender uma jogada, planejamento e controle estão dentro das funções executivas. Para atletas de modalidades que exigem estratégia, trabalhar atividades cognitivas pode ser um bom aliado”, afirma Bianca.

No próprio xadrez competitivo, preparação psicológica já faz parte do treinamento de atletas de alto rendimento. Controle emocional, concentração prolongada e capacidade de reagir a erros são fatores que podem interferir diretamente no resultado de uma partida.

A prática também exige tolerância à frustração. Uma decisão errada pode comprometer várias jogadas seguintes, e o participante precisa continuar avaliando alternativas mesmo depois de perder material ou posição.

Bianca trabalha com psicoterapia online e avaliação neuropsicológica, com foco em funções cognitivas, emocionais e comportamentais. Na prática clínica, utiliza a Terapia Cognitivo-Comportamental e atende questões relacionadas a ansiedade, estresse, TDAH, autismo, entre outras condições.

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