Um vídeo gravado na Beira-Mar de Fortaleza (CE) transformou a rotina de Matheus, de 9 anos, conhecido como Matheus dos Bombons. O menino, autista, órfão de mãe e criado pela avó, vendia doces quando foi abordado pela influenciadora Valéria Diniz. Durante a conversa, ela perguntou sobre sua preferência política, pediu que ele fizesse o gesto de “L”, associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e, depois que a criança atendeu, recusou-se a comprar os produtos. A gravação, publicada pela própria influenciadora, provocou reação nas redes sociais e desencadeou uma mobilização que ultrapassou o Ceará.
Matheus tem apenas 9 anos e, portanto, não tem idade para votar. Ainda assim, uma manifestação política infantil acabou usada como elemento de uma situação pública de constrangimento. Segundo a avó, Inês de Maria do Nascimento, ele voltou para casa calado e com os olhos cheios de lágrimas depois do episódio.
O que veio depois mudou o rumo da história. Motociclistas, entregadores e moradores da região se organizaram para visitar Matheus e a avó. O grupo levou alimentos, comprou os bombons que ele costuma vender e presenteou o menino com uma bicicleta. Campanhas de arrecadação também passaram a circular para ajudar nas despesas da família.
De uma mesa na Beira-Mar para uma corrente nacional
Matheus mora com a avó na Região Metropolitana de Fortaleza e vende balas e bombons para contribuir com a renda da casa. A exposição do caso levou milhares de pessoas a procurar informações sobre a família e oferecer ajuda.
A mobilização chegou também à televisão. Registros divulgados nas redes e confirmados pela Itatiaia mostram uma chamada de vídeo entre Matheus, a família e Luciano Huck. O apresentador da TV Globo entrou em contato depois da repercussão nacional e demonstrou interesse em ajudar o garoto.
O episódio também provocou manifestações de vereadores e pedidos para que a situação envolvendo a exposição da criança seja analisada pelas autoridades. Até esta sexta-feira (30), não havia confirmação pública de condenação ou responsabilização judicial da influenciadora pelo caso.
Valéria Diniz publicou posteriormente um pedido de desculpas. “Eu queria pedir perdão pra família do Matheus, para ele”, afirmou em vídeo divulgado após a repercussão. Ela disse que não teve intenção de humilhar a criança.
O perfil original da influenciadora, que reunia cerca de 70 mil seguidores, deixou de estar disponível depois da repercussão. Antes do episódio, ela havia declarado apoio a Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial de domingo (25).
Campanha agora quer Matheus na rampa do Planalto
A corrente de solidariedade ganhou um novo capítulo com uma campanha para levar Matheus a Brasília (DF).
O influenciador Lucas O Gera publicou um vídeo ao lado do menino pedindo apoio para que ele, a avó e familiares sejam convidados para acompanhar a posse presidencial e subir a rampa do Palácio do Planalto com Lula em janeiro de 2027. O apelo foi direcionado, entre outros, ao deputado federal André Janones e a apoiadores do presidente em Brasília.
A ideia se espalhou pelas redes sociais e passou a ser apresentada como uma forma simbólica de inverter a situação vivida pelo menino: o gesto que terminou em constrangimento na Beira-Mar seria repetido ao lado do presidente no Palácio do Planalto.
Mas há uma distinção importante. Até esta sexta-feira (30), não havia convite oficial da Presidência da República para Matheus participar da cerimônia. O que existe é uma campanha popular tentando levar a proposta ao governo.
Lula foi reeleito no domingo (25) e tomará posse para o quarto mandato presidencial em 5 de janeiro de 2027, data estabelecida pela Emenda Constitucional nº 111 para as posses presidenciais a partir deste ciclo.
A rampa ganhou significado em 2023
A proposta de levar Matheus à cerimônia tem também uma referência política recente. Na posse de Lula em 1º de janeiro de 2023, a subida da rampa do Palácio do Planalto foi feita ao lado de representantes de diferentes grupos da sociedade. A faixa presidencial foi entregue por cidadãos escolhidos para simbolizar a diversidade do país.
A campanha envolvendo Matheus procura recuperar esse simbolismo. Neste caso, porém, existe uma camada adicional: trata-se de uma criança de 9 anos que se tornou personagem de uma disputa política criada por adultos enquanto tentava vender bombons.
A reação que veio depois foi de natureza diferente. Os motociclistas que foram até sua casa, as pessoas que compraram seus doces, os alimentos e presentes entregues, a bicicleta e a ligação de Luciano Huck não dependiam de saber em quem uma criança votaria — algo que, pela própria idade, ela sequer poderia fazer.
Uma história que também levanta discussão sobre infância e redes
O episódio abriu ainda outra discussão: até onde adultos podem expor crianças nas redes sociais para produzir conteúdo, especialmente em situações de conflito político.
Matheus não procurou uma câmera nem entrou em um debate eleitoral. Ele estava trabalhando na venda de doces quando foi filmado, questionado e posteriormente exposto a uma audiência de dezenas de milhares de pessoas.
