O atacante Richarlison publicou nesta quarta-feira (21) documentos, recibos e conversas que, segundo ele, comprovam a aquisição dos direitos de ocupação de um imóvel na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), e voltou a cobrar o advogado Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o caso. A manifestação ocorreu no mesmo dia em que veio a público que Tomaz havia recorrido à Justiça para tentar impedir novas publicações do jogador sobre a disputa.
“Estarei mostrando aqui agora os documentos que comprovam que eu comprei a ilha. Foi tudo na frente do juiz, foi tudo na frente do desembargador do Rio de Janeiro e foi tudo correto”, afirmou Richarlison em vídeo publicado nas redes sociais.
Segundo informações do SBT News e do UOL, o jogador apresentou documentos relacionados à cessão de direitos sobre a área e comprovantes que totalizariam R$ 4,66 milhões em pagamentos a antigos ocupantes. Richarlison afirma que, somadas as reformas, indenizações, segurança e outras despesas, investiu aproximadamente R$ 10 milhões no imóvel.
O caso não envolve a propriedade privada de toda a ilha. A área em disputa pertence à União e o processo trata dos direitos de ocupação do terreno onde fica o imóvel utilizado pelo jogador. Atualmente, esses direitos estão registrados em nome da WT Administração de Imóveis, ligada a Willer Tomaz.
“Então eu, como cidadão brasileiro, queria ter esses privilégios, saber como que faz para ter esse privilégio da Justiça resolver mais rápido para um do que para outros. Eu, como cidadão brasileiro, fico indignado, porque aquela ilha eu comprei com dinheiro suado”, declarou Richarlison.
Richarlison responde a desafio de Willer Tomaz
A publicação ocorre depois de Willer Tomaz desafiar publicamente o atacante a apresentar um documento anterior a julho de 2022 que demonstrasse vínculo com o imóvel e comprovantes dos valores pagos.
Em nota divulgada anteriormente ao UOL, Tomaz afirmou que, caso Richarlison apresentasse documentação válida, transferiria os direitos sobre o imóvel sem cobrar pelo procedimento.
“O advogado Willer Tomaz desafia Richarlison a apresentar, em 72 horas, um único documento anterior a julho de 2022 que o vincule ao imóvel de Angra dos Reis: escritura pública, contrato de compra e venda registrado ou inscrição em seu nome na SPU, junto com o comprovante dos R$ 10 milhões que diz ter pago a quem tinha direitos sobre o bem. Se forem válidos, Willer Tomaz transfere a ele os direitos sobre o imóvel sem cobrar um centavo”, afirmou o advogado.
Richarlison respondeu diretamente à declaração nesta quarta-feira.
“Então eu estou aqui lutando pelo que é meu, que é direito meu e eu vou lutar até o final. (…) Está aí a prova, Willer Tomaz, você falou que se eu tivesse a prova que eu comprei a ilha você ia devolver, então está aí”, afirmou.
O jogador também cobrou a restituição do imóvel nas condições em que afirma tê-lo deixado.
“Eu quero a ilha de volta, com a casa reconstruída do mesmo jeito que estava antes de você demoli-la”, declarou.
Pedido para impedir novas publicações foi negado
Outro capítulo do caso veio a público nesta quarta-feira. Segundo reportagem do UOL, Willer Tomaz e a WT Administração de Bens e Imóveis ingressaram em 29 de julho com uma ação na Justiça do Distrito Federal pedindo que Richarlison fosse impedido de publicar, republicar ou compartilhar conteúdos afirmando ou insinuando que o imóvel havia sido tomado dele.
Tomaz também pediu multa mínima de R$ 50 mil por publicação, além de R$ 50 mil por dia em que o conteúdo permanecesse disponível e indenização de R$ 200 mil por danos morais.
O pedido de tutela de urgência foi negado em 13 de agosto pelo juiz Giordano Resende Costa, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.
“A tutela dirigida a conteúdo futuro e indeterminado, formulada de modo a alcançar toda e qualquer manifestação de sentido equivalente, em qualquer rede social e sob qualquer formato, aproxima-se perigosamente da restrição prévia à manifestação do pensamento”, escreveu o magistrado.
Na mesma decisão, o juiz afirmou que a Constituição permite eventual responsabilização posterior por abusos, mas “repele a censura prévia”.
O processo continua em tramitação.
Willer Tomaz afirmou ao UOL que a ação não pretende impedir Richarlison de se manifestar, mas evitar, segundo ele, a divulgação de informações falsas sobre o imóvel.
Flávio Bolsonaro aparece novamente no relato
Richarlison também exibiu no novo vídeo uma mensagem que afirma ter enviado a Flávio Bolsonaro em abril deste ano. O jogador utiliza a conversa para rebater a alegação de que teria retomado o episódio somente durante a campanha presidencial.
Flávio Bolsonaro não é parte na ação judicial sobre o imóvel. Em manifestações anteriores, o senador negou qualquer participação na aquisição, venda ou transferência da área.
Em nota enviada anteriormente ao UOL, a assessoria afirmou que Flávio “não comprou, vendeu, intermediou e nem possui qualquer vínculo com o imóvel em questão” e classificou a tentativa de associá-lo à propriedade como “factualmente infundada e eleitoralmente motivada”.
A assessoria acrescentou que o senador foi incluído apenas como testemunha pela empresa ligada ao jogador no processo judicial.
Richarlison, porém, sustenta que Flávio Bolsonaro demonstrou interesse na compra do imóvel antes da disputa. Em vídeo publicado no sábado (17), o atacante afirmou que recusou uma proposta e posteriormente perdeu a posse da área.
“Eu não quis vender a ilha para ele. Como não quis vender, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça. A gente estava resolvendo a papelada, e eles falaram que demorava meses ou até anos para resolver. Flávio Bolsonaro e o tal do Willer Tomaz foram lá e, em 24 horas, pegaram a posse da ilha”, afirmou Richarlison.
O jogador também pediu publicamente que a Polícia Federal investigue as circunstâncias da transferência.
MPF recebeu representação sobre o caso
A transferência dos direitos de ocupação também passou a ser questionada no Ministério Público Federal. Segundo o SBT News, o coletivo Derrubando Muros apresentou neste mês uma representação pedindo apuração sobre possíveis irregularidades no procedimento realizado pela Secretaria do Patrimônio da União.
A representação questiona, entre outros pontos, a velocidade do processo de transferência. A existência do pedido de investigação não significa que as irregularidades alegadas tenham sido comprovadas.
A disputa judicial começou em 2020. Uma empresa representada por advogado ligado a Willer Tomaz obteve ordem de reintegração de posse em 2022. O processo foi encerrado em outubro de 2025, sem julgamento definitivo do mérito após desistência de uma das partes, e arquivado em janeiro de 2026.
A WT Administração de Imóveis permanece como titular dos direitos de ocupação da área. Tomaz sustenta que a aquisição foi legal e afirma ter desembolsado R$ 5 milhões para quitar pendências relacionadas ao terreno.
