Ruy Castro tornou-se o primeiro autor a conquistar o prêmio de Livro do Ano do Jabuti em duas edições consecutivas. O jornalista e escritor de 78 anos venceu nesta terça-feira (27) com Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, publicado pela Companhia das Letras, um ano depois de levar a mesma distinção com O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim.
O resultado foi anunciado durante a cerimônia da 68ª edição do Prêmio Jabuti, realizada na Sala São Paulo, na capital paulista. Além da principal premiação da noite, Trincheira tropical venceu a categoria Biografia e Reportagem, no eixo de Não Ficção. Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), a edição de 2026 recebeu 4.675 inscrições de obras e projetos distribuídos em 22 categorias, além de 402 indicações válidas na nova categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital.
Publicado em 2025, Trincheira tropical reconstitui a vida do Rio de Janeiro entre 1935 e 1945, período em que a cidade ainda era a capital federal e acompanhava de perto os efeitos políticos, econômicos e sociais provocados pela Segunda Guerra Mundial. O livro aborda a ditadura do Estado Novo, a presença de diplomatas, refugiados e agentes estrangeiros no país, as disputas políticas internas e o movimento que levou o Brasil a abandonar a neutralidade e entrar no conflito ao lado dos Aliados.
O recorte escolhido por Ruy Castro procura mostrar a guerra não apenas a partir dos campos de batalha europeus, mas pelos efeitos que ela produziu no cotidiano carioca. O autor acompanha mudanças no comportamento, na política, na imprensa e na rotina da cidade em um período de dez anos marcado pela ascensão do nazismo e do fascismo, pela Segunda Guerra e pela participação brasileira no conflito.
A vitória estabelece uma marca inédita na história do Jabuti. Em 2025, Ruy Castro já havia recebido o Livro do Ano por O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim, coletânea de textos sobre o compositor. Naquela edição, a obra também havia sido premiada na categoria Crônica.
O Jabuti não é novidade na trajetória do jornalista. Ruy Castro já havia sido premiado há cerca de três décadas por Estrela Solitária, biografia de Garrincha, e voltou a receber reconhecimento da premiação em 2023 por Os perigos do imperador.
Nascido em Caratinga (MG), em 1948, Ruy Castro iniciou a carreira jornalística em 1967. Ao longo de quase seis décadas de atuação, publicou biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda e livros sobre a bossa nova, música brasileira e a história cultural do Rio de Janeiro. Em 2022, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
O prêmio de Livro do Ano rende ao autor R$ 70 mil, além da estatueta do Jabuti. Ruy Castro também poderá escolher participar, em 2027, de uma das quatro feiras internacionais incluídas no regulamento: Londres, Bolonha, Frankfurt ou Guadalajara. A CBL custeará passagem, hospedagem, diárias, credencial e uma agenda de divulgação da obra.
Os vencedores das demais categorias recebem R$ 5 mil e a estatueta. A premiação de 2026 foi organizada em quatro grandes eixos: Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação.
Para Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, o alcance do Jabuti vai além da entrega dos troféus. “Celebrar os vencedores é também dar visibilidade à riqueza da produção brasileira”, afirmou. A CBL informou que as obras premiadas serão apresentadas também em bienais, feiras e outros eventos do setor editorial no Brasil e no exterior.
Entre os outros destaques da noite, Eliana Alves Cruz venceu a categoria Romance Literário com Meridiana. Alberto Martins foi premiado em Poesia por Boris e Marina, enquanto Humberto Werneck levou a categoria Crônica. Na área de quadrinhos, Luckas Iohanathan conquistou seu segundo Jabuti com Ouroboros.
A edição deste ano também estreou a categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital, criada para reconhecer criadores que utilizam redes sociais e plataformas digitais para formar comunidades de leitores. O vencedor foi Pedro Pacífico, responsável pelo perfil Bookster. A categoria recebeu 402 indicações válidas, passou pela avaliação de 12 jurados e teve seus cinco finalistas definidos em votação popular.
“Também ampliamos a disputa pelo Livro do Ano para incluir os vencedores das categorias de escritores estreantes em Poesia e Romance”, afirmou Hubert Alquéres, curador do Prêmio Jabuti, ao explicar as mudanças introduzidas na 68ª edição.
A cerimônia homenageou ainda Lygia Bojunga como Personalidade Literária de 2026, no ano em que A Bolsa Amarela completa 50 anos. A escritora, nascida em Pelotas (RS) em 1932, recebeu o Hans Christian Andersen em 1982 e o Astrid Lindgren Memorial Award em 2004, duas das principais distinções internacionais da literatura infantil e juvenil. Ela enviou uma carta manuscrita para a cerimônia e classificou a homenagem como “um belo incentivo”.
Criado em 1958, o Prêmio Jabuti chegou em 2026 à 68ª edição. Ruy Castro recebeu o Livro do Ano e o prêmio de Biografia e Reportagem por Trincheira tropical, enquanto os vencedores das 23 categorias foram anunciados na noite de terça-feira (27), na Sala São Paulo.
