Os registros de maus-tratos contra animais associados ao ambiente digital cresceram 120% no estado de São Paulo entre 2024 e 2026, segundo dados da Polícia Civil citados pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo. O avanço colocou em evidência o chamado zoosadismo digital, prática que envolve gravação, compartilhamento e, em alguns casos, monetização de imagens de violência contra animais.
O fenômeno deixou de ficar restrito a fóruns clandestinos e passou a aparecer também em redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas acessíveis por celulares. Segundo o CRMV-SP, há casos em que crianças e adolescentes são incentivados a participar de desafios e grupos relacionados a esse tipo de conteúdo.
A dimensão internacional também é significativa. Em 2024, a Social Media Animal Cruelty Coalition identificou mais de 83 mil links com conteúdo de crueldade animal distribuídos em 11 grandes plataformas digitais, de acordo com dados reproduzidos pelo conselho paulista.
Rosangela Gebara, integrante da Comissão de Bem-Estar Animal do CRMV-SP, afirma que parte desses grupos atua justamente em horários de menor supervisão dos responsáveis.
“Durante a madrugada, crianças e adolescentes são frequentemente aliciados a participar de desafios digitais em comunidades e grupos”, afirmou.
Segundo ela, animais que vivem na própria residência podem se transformar em vítimas das agressões. Os casos identificados incluem violência psicológica e física e, em situações extremas, morte.
“Estamos diante de um novo tipo de crime, que está crescendo de forma alarmante, impulsionado pela dinâmica das redes”, afirmou Rosangela.
O ambiente digital adiciona uma característica específica aos crimes: a violência deixa de atingir apenas o animal e passa a produzir conteúdo destinado a gerar visualizações, compartilhamentos ou reconhecimento dentro de determinados grupos.
A psicóloga Bianca Gresele, ouvida pelo CRMV-SP, explica que a publicação dos atos pode funcionar como forma de validação. “No ambiente digital, a banalização da crueldade pode indicar busca por validação social por meio da violência”, afirmou.
O crescimento desses casos também modificou o papel do médico-veterinário. Além de tratar ferimentos, o profissional pode ser responsável por identificar lesões incompatíveis com acidentes e registrar informações capazes de contribuir para investigações criminais.
A Resolução nº 1.236/2018, do Conselho Federal de Medicina Veterinária, estabelece parâmetros para caracterização de crueldade, abuso e maus-tratos e determina responsabilidades dos profissionais diante de suspeitas.
Entre os sinais que podem levantar suspeita estão queimaduras, cortes, unhas arrancadas, ferimentos por estrangulamento e indícios de envenenamento.
“O médico-veterinário pode ser o primeiro a identificar uma lesão não acidental”, afirma Rosangela Gebara.
Quando o animal chega morto, a necropsia veterinária pode ser utilizada para determinar causa e mecanismo da morte. Em casos criminais, a preservação da cadeia de custódia passa a ser fundamental para que exames, fotografias e materiais possam ter valor como prova.
Esther Espejo, integrante da Comissão Técnica de Medicina Veterinária Legal do CRMV-SP, orienta que registros clínicos sejam detalhados e rastreáveis. A recomendação inclui informações sobre origem de fotos ou vídeos, data em que foram apresentados ao veterinário e relação entre o conteúdo digital e as lesões observadas no animal.
“Esses elementos precisam ser registrados de forma objetiva no prontuário”, afirma Esther.
A orientação do conselho é que profissionais e cidadãos evitem interagir com publicações de crueldade. Curtidas, comentários ou compartilhamentos podem aumentar o alcance do conteúdo e dificultar a preservação adequada das provas.
A recomendação é registrar links, capturas de tela, identificação de perfis e outras informações disponíveis e encaminhar a denúncia às plataformas e às autoridades policiais. Em São Paulo, casos podem ser comunicados à Delegacia Eletrônica de Proteção Animal.
A legislação brasileira prevê penas mais severas quando maus-tratos envolvem cães ou gatos. A Lei 14.064/2020 estabelece reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda para quem praticar abuso ou maus-tratos contra esses animais.
O problema digital também passou a ser analisado sob a chamada Teoria do Elo, linha de pesquisa que estuda associações entre violência contra animais e violência interpessoal. O CRMV-SP cita estudos que apontam maior frequência de outros comportamentos violentos entre indivíduos envolvidos em crueldade animal, embora essa associação não signifique que todo agressor necessariamente pratique outros crimes.
Em junho de 2026, o CRMV-SP também passou a destacar o impacto psicológico sobre os próprios veterinários envolvidos nesses casos. Profissionais expostos repetidamente a situações de violência podem desenvolver fadiga por compaixão e estresse traumático secundário.
“Cuidar da saúde mental dos médicos-veterinários é fortalecer toda a rede de proteção”, afirmou Bianca Gresele.
Segundo os dados divulgados pelo CRMV-SP, os registros de maus-tratos a animais ligados ao ambiente virtual cresceram 120% em São Paulo entre 2024 e 2026. A coalizão internacional SMACC identificou mais de 83 mil links com conteúdo de crueldade animal somente em 2024.
