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De Prestes a PC Farias: as fugas e exílios que atravessaram a história política brasileira

Livro (Foto: Reprodução)

Livro de Xico Sá sobre PC Farias recupera uma das fugas mais cinematográficas da política nacional.

Foto: Reprodução

O lançamento de “O Tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias”, do jornalista e escritor Xico Sá, recolocou em circulação uma das histórias mais emblemáticas da política brasileira recente: a caçada internacional a Paulo César Farias, tesoureiro da campanha de Fernando Collor e personagem central do escândalo que terminou no impeachment do então presidente. Mais de três décadas depois, a fuga de PC continua sendo referência quando o país volta a discutir políticos, operadores financeiros e investigados que deixam o Brasil sob pressão da Justiça.

Xico Sá acompanhou o caso como repórter da Folha de S.Paulo e foi um dos jornalistas que mais se aproximaram de PC naquele período. A busca pelo paradeiro do tesoureiro virou, segundo ele próprio, uma obsessão profissional.

“O PC Farias era muito interessante como personagem. Acabei tendo muito acesso a ele, e todo mundo começou a me cobrar informações, das autoridades à dona Olinda, que servia café na redação da Folha de S.Paulo. Fui empurrado por essa obsessão e virou uma paranoia: o medo de ser ‘furado’, de alguém dar a notícia antes”, contou Xico Sá em entrevista à revista Quatro Cinco Um.

O jornalista diz que a figura de PC também o atraía por uma característica incomum: ele exercia enorme influência política sem ocupar formalmente um cargo público.

“Sou muito leitor da literatura noir, do romance policial — Raymond Chandler, Dashiell Hammett. Sempre vivi um conflito entre o jornalismo e a literatura. (…) Atribuo à minha devoção ao romance noir a decisão de ir atrás do PC Farias, uma figura que não tinha cargo público e agia na sombra, no subsolo de Brasília”, afirmou.

PC Farias: da queda de Collor à caçada internacional

Paulo César Farias teve a prisão decretada em 1993, meses depois do impeachment de Fernando Collor. Investigado em dezenas de inquéritos, deixou o Brasil e passou a circular por diferentes países.

A fuga ganhou características cinematográficas. PC passou pela Argentina e conseguiu chegar à Europa. Durante meses, seu paradeiro mobilizou Polícia Federal, Interpol e jornalistas brasileiros.

Em outubro de 1993, ele foi localizado em Londres. Meses depois, seria preso em Bangkok, na Tailândia, e posteriormente extraditado ao Brasil.

Xico Sá recorda que seu contato com PC seguia uma relação profissional, apesar da proximidade construída durante a cobertura.

“Antes de fugir da Justiça, sempre que tinha uma coisa importante para contar PC me procurava. Nosso contato sempre foi muito formal, como deve ser o contato entre um jornalista e um homem como PC”, afirmou à Folha em 1993.

O livro lançado por Xico em 2026 retoma justamente essa combinação entre poder, dinheiro, fuga e bastidores da política brasileira.

“Achei que encontraria um vilão meio caricatural, aquele canalha latino-americano bigodudo ligado à corrupção, e me surpreendi. Encontrei um ex-seminarista que soltava citações em latim o tempo todo, era alucinado pelas crônicas do Carlos Heitor Cony, um personagem do Nelson Rodrigues”, afirmou o autor.

Para Xico, porém, a importância de PC ultrapassa a excentricidade do personagem.

“Era a chance de falar do cara que seria o responsável pela queda do presidente e abrir um panorama de como funciona a política no Brasil”, disse.

O jornalista também faz uma ponte entre aquele período e personagens contemporâneos ligados ao financiamento político.

“A cada eleição fico de olho no cara que arrecada para a campanha. (…) Esses personagens estão todos por aí. Mudam uma coisa ou outra, tiram o bigodão dos anos 90, mas estão vivíssimos na política brasileira”, afirmou.

Antes de PC, houve exílio e retirada política

A história brasileira, porém, registra saídas do território nacional muito antes da redemocratização. Os contextos eram completamente diferentes.

Em 1927, depois de quase dois anos de marcha pelo interior do país, a Coluna Prestes decidiu deixar o Brasil diante da impossibilidade de derrubar o governo federal. O movimento havia percorrido aproximadamente 25 mil quilômetros e atravessado 13 estados sem sofrer derrota militar definitiva.

Parte dos integrantes seguiu para Paraguai, Argentina e Bolívia. Luís Carlos Prestes atravessou a fronteira boliviana acompanhado de centenas de homens.

Tratava-se de uma retirada política e militar de um movimento revolucionário, e não de uma fuga de investigação criminal no sentido contemporâneo.

Essa diferença é fundamental para compreender os episódios seguintes.

Ditadura transformou saída do país em sobrevivência política

Depois do golpe militar de 1964, sair do Brasil assumiu outro significado.

João Goulart deixou o país depois de ser deposto da Presidência. Ele inicialmente tentou articular resistência no Rio Grande do Sul, mas desistiu do confronto ao concluir que uma reação armada poderia desencadear uma guerra civil. Seguiu então para o Uruguai, onde viveu no exílio.

Leonel Brizola, aliado de Goulart e uma das principais lideranças trabalhistas do período, também deixou o país diante da perseguição do regime.

Miguel Arraes teve trajetória ainda diferente. Governador de Pernambuco em 1964, foi deposto e preso. Passou por Fernando de Noronha e, após obter habeas corpus, seguiu para o exterior. Foi recebido pela Argélia em 1965 e permaneceu 14 anos fora do Brasil, retornando apenas depois da Lei da Anistia.

Nesses casos, a palavra correta é exílio.

Não eram pessoas que buscavam escapar da aplicação regular da lei em uma democracia. Eram adversários políticos perseguidos por um regime autoritário que cassava mandatos, suspendia direitos, prendia opositores e restringia liberdades civis.

A redemocratização muda novamente o significado

Com o retorno da democracia, as grandes fugas políticas brasileiras passaram a ter outra natureza.

O caso de PC Farias inaugura uma sequência de personagens que saíram do país diante de processos criminais, ordens judiciais ou condenações.

Um dos exemplos mais conhecidos é Salvatore Cacciola.

Ex-controlador do Banco Marka, Cacciola deixou o Brasil depois de obter liberdade e foi para a Itália, país do qual também possuía cidadania. Permaneceu anos fora do alcance das autoridades brasileiras até ser preso em Mônaco, em 2007, e posteriormente extraditado.

Outro episódio ocorreu com Henrique Pizzolato.

Condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo do mensalão a 12 anos e sete meses de prisão por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro, o ex-diretor do Banco do Brasil deixou o Brasil em 2013.

A fuga envolveu um detalhe incomum: Pizzolato utilizou documentos em nome de um irmão morto décadas antes.

Ele foi localizado e preso em fevereiro de 2014, em Maranello, na Itália, em operação conduzida pelas autoridades italianas e pela Interpol. Posteriormente, foi extraditado para o Brasil.

Fugir ficou mais difícil

As fugas também revelam como os mecanismos de controle mudaram.

Nos anos 1990, PC Farias conseguiu atravessar diferentes países enquanto era procurado e passou meses escondido. Hoje, sistemas de controle migratório, compartilhamento internacional de informações, rastreamento financeiro, câmeras, registros de voos e cooperação policial tornam esse tipo de deslocamento mais difícil.

A Interpol pode emitir alertas internacionais, países podem compartilhar informações migratórias e ordens judiciais podem determinar cancelamento de passaportes e restrições de saída do território nacional.

Mesmo assim, os casos de Cacciola e Pizzolato mostram que possuir dupla nacionalidade, utilizar documentos falsos ou entrar em países com regras específicas de extradição pode transformar uma fuga em uma disputa jurídica que dura meses ou anos.

Nem toda saída do país é a mesma história

A comparação histórica exige cuidado.

Luís Carlos Prestes deixou o Brasil depois de uma revolta armada contra o governo da Primeira República.

João Goulart, Leonel Brizola e Miguel Arraes viveram o exílio provocado por uma ditadura.

PC Farias, Salvatore Cacciola e Henrique Pizzolato deixaram o país em contexto democrático diante de investigações, ordens judiciais ou condenações.

São histórias diferentes.

O que as aproxima é a fronteira como elemento político: em diferentes momentos da história brasileira, atravessar a divisa do país significou sobreviver, reorganizar uma luta, escapar da prisão ou tentar ganhar distância da Justiça.

No caso de PC Farias, a história ainda conserva um componente adicional. Depois de voltar ao Brasil, ser preso e posteriormente ganhar liberdade, ele foi encontrado morto em 1996 ao lado da namorada Suzana Marcolino, em sua casa de praia em Alagoas.

Trinta anos depois, Xico Sá voltou àquele personagem para contar não apenas uma fuga, mas um período da política brasileira.

“Os pensamentos foram construídos por duas fontes: o próprio PC, quando ele estava na prisão, em Brasília, tive longas conversas com ele (…) e dona Elma Farias, mulher dele, também me ajudou muito nessa reconstituição”, contou o jornalista ao Correio Braziliense.

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