Política

Escritório de Flávio Bolsonaro faturou R$ 13,7 milhões durante mandato no Senado, diz UOL

Flávio Bolsonaro afirma que pretende mudar a Constituição caso seja eleito e destaca avanço da direita no Congresso após as eleições de 2026.

Levantamento analisou 62 notas fiscais emitidas entre 2023 e 2026

O escritório de advocacia do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exercia mandato no Senado. Os dados foram revelados nesta terça-feira (20) pelo UOL, que analisou 62 documentos fiscais da Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia. Aproximadamente metade dos valores identificados teve como pagadores outros escritórios ou profissionais da advocacia.

Na maior parte das notas examinadas, os serviços aparecem descritos apenas como “assessoria jurídica”. A ausência de detalhes nas notas, por si só, não significa que o trabalho não tenha sido realizado: a atividade de um advogado também pode envolver consultoria, elaboração de pareceres e orientação extrajudicial, sem participação em processos nos tribunais. O UOL informou ter pesquisado processos nas Justiças estadual e federal e em tribunais superiores e localizado um caso relacionado aos clientes identificados nas notas. Procurados pela reportagem, alguns contratantes afirmaram que os serviços foram efetivamente prestados.

O maior volume identificado veio do Nilo & Almeida Advogados Associados, escritório do qual Edvaldo Nilo de Almeida é sócio. Duas notas emitidas em 2025 somaram R$ 4 milhões, o equivalente a cerca de 29% dos R$ 13,7 milhões levantados. Edvaldo Nilo afirmou que houve um contrato entre os escritórios e que “os serviços foram regularmente prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, em casos sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos”. Ele não detalhou quais clientes ou processos deram origem aos pagamentos.

Outra cliente de peso foi a Simas Industrial de Alimentos, com R$ 3,3 milhões em três notas emitidas entre 2023 e 2024. Neste caso, há registro da atuação de Flávio Bolsonaro em uma disputa societária que chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Duas sociedades ligadas ao advogado Otto Medeiros aparecem com outros R$ 2,1 milhões, enquanto o escritório de Daniel Bettamio Tesser, integrante da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, está relacionado a R$ 970 mil em pagamentos descritos como assessoria jurídica.

Senador pode exercer advocacia?

O exercício de outra profissão não é automaticamente proibido a integrantes do Congresso. No caso da advocacia, porém, o Estatuto da Advocacia estabelece limitações específicas para parlamentares. Membros do Poder Legislativo não podem atuar profissionalmente contra ou a favor de determinadas pessoas jurídicas ligadas ao poder público. Integrantes da Mesa do Poder Legislativo, por sua vez, ficam incompatibilizados com o exercício da advocacia enquanto ocuparem a função.

Flávio Bolsonaro é o único titular da sociedade de advocacia, aberta em abril de 2021. Segundo os registros consultados pelo UOL, o endereço da empresa é a residência do senador no Lago Sul, em Brasília (DF), e a banca não possui outros funcionários. A administradora registrada é Letícia Caetano dos Reis.

As movimentações do escritório também passaram a integrar uma nova apuração da Polícia Federal. Segundo o UOL, o inquérito foi aberto após investigadores identificarem indícios de que uma conta bancária poderia ter sido compartilhada entre Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz. Os dois negam que dividissem a titularidade da conta. A existência de uma investigação não significa culpa ou comprovação de irregularidade.

Uma das contas indicadas para recebimento em notas fiscais do escritório é apontada pela investigação como a mesma que motivou a apuração sobre a relação financeira entre Flávio e Willer Tomaz. O caso está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Até a publicação da reportagem original, a campanha de Flávio Bolsonaro não havia apresentado resposta aos questionamentos enviados pelo UOL.

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