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PF amplia apuração sobre relação de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz e rastreia bilhões ligados a bets

Bolsonaro (Foto: © Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação)

Investigadores analisam dados de nuvem, movimentações financeiras, empresas e gastos para esclarecer se relação ultrapassava amizade.

Foto: © Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação

A Polícia Federal ampliou a investigação sobre a relação entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz e passou a trabalhar com a hipótese de que os dois possam ter mantido uma relação econômica ou societária. Segundo apuração da jornalista Andréia Sadi, publicada neste sábado (24) no g1, investigadores querem esclarecer como funcionava essa ligação e se Tomaz atuava como uma espécie de ponte financeira do senador.

A nova frente aprofunda elementos que já vinham sendo analisados pela PF, entre eles o acesso de Flávio a uma conta bancária ligada à Alcazar Holdings, empresa de Tomaz, viagens internacionais feitas pelos dois, relações com empresas do setor de apostas e movimentações financeiras consideradas relevantes pelos investigadores.

A investigação tramita no Supremo Tribunal Federal e está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Flávio e Tomaz negam manter sociedade e afirmam que a relação entre eles é de amizade.

Segundo a apuração de Sadi, a PF procura estabelecer não apenas se havia participação societária formal ou informal, mas também de que maneira recursos transitavam entre pessoas e empresas ligadas ao advogado. Uma fonte que acompanha o caso classificou Tomaz como um “fêmur quebrado” para Flávio, expressão usada para dimensionar, na avaliação desse interlocutor, o potencial político e investigativo do caso.

A declaração é de uma fonte não identificada ouvida pelo blog e não representa conclusão formal da Polícia Federal.

Investigação alcança movimentações bilionárias

Uma das frentes consideradas mais relevantes envolve o mercado de apostas on-line. A PF analisa suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a movimentações que, em diferentes apurações envolvendo Willer Tomaz e plataformas de apostas, chegam à casa dos bilhões de reais.

Dados do Ministério da Fazenda apontam que Tomaz foi o maior apostador individual identificado no país em 2025, com aproximadamente R$ 5 bilhões movimentados em plataformas de apostas.

Em outra investigação revelada pelo UOL, a Polícia Federal rastreou R$ 1,4 bilhão em transações envolvendo Tomaz e a plataforma Blaze. Os investigadores analisam a hipótese de que apostas e transferências entre diferentes contas tenham sido utilizadas para aumentar o número de operações financeiras e dificultar a identificação da origem e do destino final dos recursos.

Tomaz nega ter movimentado R$ 1,4 bilhão com a Blaze e afirma que sua relação com a plataforma foi exclusivamente como cliente. Também nega participação societária ou comercial na empresa.

A PF encontrou registros de apostas de dezenas de milhões de reais em determinados dias e passou a examinar se o volume era compatível com uma atividade convencional de jogo.

Em relatório divulgado anteriormente, investigadores registraram que o fracionamento e a passagem de valores por diferentes contas poderiam criar “camadas sucessivas de movimentação”, reduzindo a transparência do fluxo financeiro.

Dados armazenados em nuvem entraram na investigação

Parte importante das informações utilizadas pela PF foi obtida a partir de dados armazenados em nuvem vinculados a aparelhos de Willer Tomaz, apreendidos durante diligências policiais.

Segundo Andréia Sadi, os investigadores analisam arquivos do celular, faturas de cartões, documentos empresariais e informações relacionadas a um escritório de advocacia. A intenção é reconstruir a movimentação patrimonial e financeira e identificar quem efetivamente utilizava determinadas empresas e contas.

Foi nesse conjunto de documentos que surgiu um dos elementos mais sensíveis envolvendo Flávio.

E-mails obtidos pela PF indicaram que o senador aparecia cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings no Santander. Segundo relatório da investigação, esse nível de acesso permitia consultar informações da conta e administrar permissões de outros usuários.

A PF afirmou que a informação, analisada junto a outros vínculos identificados, “sustenta a hipótese” de eventual participação econômica ou societária de Flávio na empresa.

Flávio nega ter mantido conta conjunta com Tomaz ou participação em empresas do advogado. Willer também afirma que o senador nunca foi usuário master de suas contas e rejeita as conclusões apresentadas nas investigações.

Relação inclui empresas, viagens e negócios

Documentos reunidos em diferentes reportagens mostram que a relação entre os dois não se limitava a encontros pessoais.

Flávio e Tomaz fizeram viagens internacionais juntos e seus familiares mantinham convivência. Empresas ligadas ao advogado também apareceram relacionadas a aeronaves utilizadas nessas viagens.

A Polícia Federal identificou ainda conexões entre Alcazar Holdings, Cathedral Holdings e empresas relacionadas ao mercado de apostas.

A Cathedral foi controladora da Rede Loto, empresa ligada à Best Bet, que recebeu autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro para explorar apostas. A PF investiga se Flávio tinha participação indireta no negócio.

Reportagem da revista piauí mostrou que a conta da Alcazar no Santander possuía, segundo documentos analisados, dois usuários classificados como master: Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.

Em maio de 2025, uma funcionária do advogado enviou ao banco um pedido para retirar Flávio dessa condição. Naquele mesmo período, Flávio e Tomaz estavam em viagem pela Europa.

Os dois negam ter compartilhado conta bancária e afirmam que não mantiveram sociedade.

Escritório de Flávio também está sob análise

Outra frente da investigação envolve a atividade profissional do senador como advogado.

O escritório de Flávio emitiu aproximadamente R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, de acordo com documentos revelados pela Folha de S.Paulo.

Entre os clientes aparecem empresas e empresários que também mantiveram relações profissionais com Willer Tomaz.

Em um dos casos, Flávio e Tomaz atuaram na defesa do mesmo empresário em uma disputa societária. Flávio protocolou uma petição no Superior Tribunal de Justiça em 14 de outubro, já durante a campanha presidencial.

A existência de clientes em comum não representa irregularidade por si só, mas integra o conjunto de relações que a PF procura reconstruir.

Coaf apontou movimentações acima da renda informada

Outro elemento incorporado ao inquérito são relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras.

Documentos divulgados neste sábado apontam que Flávio movimentou R$ 1,3 milhão entre janeiro e março de 2024 em operações classificadas pelo Coaf como atípicas em relação à capacidade financeira informada para o período.

Segundo o relatório, o volume movimentado foi aproximadamente 7,2 vezes superior ao esperado a partir dos dados econômicos apresentados.

O Coaf também identificou movimentação de R$ 337,6 mil em uma conta do senador em novembro de 2025. O órgão classificou o volume como habitualmente superior à capacidade econômica declarada.

Comunicações do Coaf não significam comprovação de crime. O órgão produz relatórios quando identifica operações que se enquadram em critérios de risco e encaminha as informações para análise das autoridades competentes.

Investigação deve continuar depois da eleição

Segundo a apuração de Andréia Sadi, integrantes do STF e investigadores avaliam que o caso deverá continuar em análise independentemente de quem vencer o segundo turno da eleição presidencial.

A investigação busca esclarecer a origem e o destino dos recursos, o funcionamento das empresas relacionadas a Tomaz e a eventual participação de terceiros nas estruturas financeiras analisadas.

Willer Tomaz também é investigado em outras frentes da Polícia Federal, incluindo a Operação Sem Desconto, que apura fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS.

Moraes determinou nesta semana a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial de empresas ligadas ao advogado e autorizou bloqueio de bens e valores de até R$ 6 bilhões. Tomaz nega envolvimento em lavagem de dinheiro, afirma que seus recursos possuem origem lícita e contesta as suspeitas apresentadas pela Polícia Federal.

Flávio Bolsonaro também nega irregularidades e afirma que nunca foi sócio de Willer Tomaz ou de empresas relacionadas ao advogado. A investigação permanece em andamento no STF.

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