O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou nesta quarta-feira (28) que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deve respeitar o resultado da eleição presidencial e “seguir em frente”. A declaração ocorreu depois de o senador divulgar uma carta em que contestou a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e passou a se apresentar como “líder do Brasil”.
Tarcísio disse compreender a insatisfação de Flávio, mas defendeu que a disputa eleitoral seja considerada encerrada. O governador também afirmou que a oposição precisa atuar de forma institucional e respeitar o processo democrático.
“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”, declarou.
Tarcísio pede oposição dentro das instituições
Além de defender o reconhecimento do resultado, Tarcísio afirmou que o momento exige responsabilidade e serenidade dos grupos que fizeram oposição a Lula durante a eleição. Segundo o governador, os adversários do presidente reeleito devem organizar uma oposição forte, mas dentro das regras democráticas.
Ele também mencionou a importância do sistema de freios e contrapesos entre os Poderes. “O momento exige responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição forte, capaz de exercer seu papel”, afirmou Tarcísio. O governador acrescentou que o fortalecimento da democracia passa pelo respeito às instituições e ao processo eleitoral.
A manifestação representa um distanciamento das acusações feitas por Flávio na carta. Tarcísio foi um dos principais aliados do senador durante a campanha presidencial.
Flávio se declarou ‘presidente eleito’ antes de mudar carta
Flávio Bolsonaro divulgou nesta quarta-feira uma carta dirigida ao público brasileiro e à comunidade internacional. Na primeira versão publicada, o senador se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de ter sido derrotado no 2º turno.
Cerca de 20 minutos depois, o texto publicado no X foi alterado. A expressão “verdadeiro presidente” foi substituída por “líder do Brasil”. Em outro trecho, “eu sou o presidente eleito” também passou a aparecer como “eu sou o líder”.
A Folha identificou ao menos quatro versões diferentes do documento, entre arquivos compartilhados por aliados e publicações feitas pelo próprio senador. As versões também apresentaram mudanças na formatação e no brasão utilizado. Mesmo após as alterações, Flávio manteve no texto críticas ao processo eleitoral, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Flávio alega fraude sem apresentar provas
Na carta, Flávio voltou a questionar a legitimidade do 2º turno e afirmou que teria ocorrido fraude eleitoral. O senador, porém, não apresentou provas que sustentassem a acusação. Ele também afirmou que houve uma suposta “impossibilidade matemática” no resultado e criticou decisões tomadas pela Justiça durante o dia da votação.
Os números oficiais do TSE mostram que Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi superior a 4,4 milhões de votos. O TSE também disponibiliza os boletins de urna, registros digitais do voto e logs dos equipamentos para consulta pública e auditoria.
Prorrogação da votação aparece entre questionamentos
Um dos pontos citados por Flávio envolve a extensão do horário de votação no domingo (25). O STF autorizou a continuidade do voto até as 19h nas seções que ainda permaneciam abertas às 17h. A decisão ocorreu após problemas envolvendo transporte de eleitores e condições climáticas. Pedidos relacionados à ampliação do horário partiram tanto da coligação de Lula quanto da campanha de Flávio Bolsonaro.
Segundo dados divulgados pelo TSE, 34.393 votos foram registrados depois das 17h em todo o país. Apenas 1.981 ocorreram entre 18h e 19h. O número é muito inferior à diferença superior a 4,4 milhões de votos entre os dois candidatos no resultado final.
PL e aliados reconhecem resultado
A contestação feita por Flávio também provocou reações entre integrantes de seu próprio campo político. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, afirmou que nem ele nem o partido poderiam sustentar a existência de fraude sem provas.
Partidos que apoiaram Flávio durante o 2º turno também reconheceram o resultado eleitoral. Republicanos e MDB, por exemplo, defenderam respeito ao processo democrático após a confirmação da vitória de Lula.
Tarcísio já havia defendido anteriormente que a oposição aceitasse o resultado e se preparasse para atuar politicamente contra o novo governo dentro das instituições. Com a nova declaração, o governador reforçou esse posicionamento e evitou acompanhar a contestação apresentada por Flávio.
Flávio está nos Estados Unidos
Flávio deixou o Brasil depois da eleição e chegou aos Estados Unidos nesta quarta-feira. Na carta, afirmou que está em segurança com a família e disse que pretende liderar a oposição a partir do exterior. O senador também agradeceu aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina.
Flávio negou que sua saída do país represente uma fuga. Reportagens, porém, relatam que ele deixou o Brasil enquanto era alvo de investigações e depois de uma ordem relacionada à entrega de passaportes. Não havia, nas informações consultadas, ordem de prisão contra o senador relacionada a esse episódio.
Lula venceu o 2º turno com 51,79%
O resultado oficial foi anunciado pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, após a votação de domingo. Lula recebeu 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio terminou com 48,21%. Mais de 128 milhões de eleitores compareceram às urnas no 2º turno.
O resultado garantiu a Lula um novo mandato a partir de 2027. Agora, enquanto Flávio afirma que pretende manter a contestação e liderar a oposição dos Estados Unidos, Tarcísio defende outro caminho: reconhecer o resultado, reorganizar a oposição e atuar dentro das instituições.
