Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) acrescentou uma nova frente às apurações sobre as finanças do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo informações reveladas neste sábado (24) pelo jornal O Globo, o órgão identificou movimentações consideradas incompatíveis com a renda declarada do parlamentar, incluindo R$ 1,3 milhão transacionados em um período de três meses e operações relacionadas ao escritório de advocacia utilizado por Flávio para explicar parte dos recursos empregados na quitação de sua mansão em Brasília.
A identificação de uma movimentação como atípica pelo Coaf não significa, por si só, que tenha ocorrido crime. O órgão produz relatórios de inteligência financeira quando instituições identificam operações fora do padrão esperado para determinado cliente, cabendo às autoridades responsáveis investigar a origem, o destino e a justificativa dos valores.
O novo material aparece em um momento em que a Polícia Federal já investiga relações financeiras e empresariais envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz. O inquérito, distribuído ao Supremo Tribunal Federal e relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A Procuradoria-Geral da República deu parecer favorável ao avanço da investigação.
Parte das suspeitas surgiu a partir de dados apreendidos em dispositivos de Willer Tomaz. Segundo a Polícia Federal, uma conta ligada ao advogado movimentou aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de 2025, valor classificado pelos investigadores como aparentemente incompatível com as atividades econômicas conhecidas. A defesa de Tomaz nega qualquer irregularidade e afirma que seus recursos têm origem lícita.
A investigação também encontrou indícios de que Flávio teria tido acesso como “usuário master” a uma conta de uma empresa ligada a Willer. A assessoria do senador nega que tenha existido conta conjunta entre os dois e afirma que a relação é de amizade. Documentos levantados pela Folha mostram ainda que ambos tiveram clientes e endereços profissionais em comum ao longo da atuação jurídica em Brasília.
Escritório movimentou quase R$ 14 milhões
O escritório individual de advocacia de Flávio passou a ocupar papel central nas explicações sobre sua renda privada.
Levantamento divulgado nesta semana identificou pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais emitidas pela Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia entre janeiro de 2023 e julho de 2026. A empresa tem o senador como único titular e funciona no mesmo endereço da residência dele no Lago Sul, em Brasília.
Entre os clientes identificados aparecem escritórios de advocacia e empresas privadas. Uma das maiores pagadoras foi a Simas Industrial de Alimentos, com aproximadamente R$ 3,3 milhões. Outro escritório, Nilo & Almeida Advogados Associados, aparece com pagamentos que somam R$ 4 milhões. As notas consultadas descrevem os serviços de maneira genérica, principalmente como “assessoria jurídica”.
A emissão de notas fiscais e a prestação de serviços jurídicos por um parlamentar não configuram irregularidade automaticamente. Senadores podem exercer advocacia, observados os impedimentos previstos na legislação e no Estatuto da Advocacia. A investigação busca esclarecer a origem e a finalidade de determinadas movimentações e suas eventuais relações com outros investigados.
Mansão de quase R$ 6 milhões voltou ao centro da apuração
Flávio comprou em 2021 uma mansão no Lago Sul por aproximadamente R$ 5,97 milhões. Cerca de R$ 2,87 milhões foram pagos inicialmente e aproximadamente R$ 3,1 milhões financiados pelo Banco de Brasília, o BRB.
O contrato previa financiamento de até 30 anos, mas a dívida foi quitada em cerca de 37 meses. Foram realizados pagamentos extraordinários que somaram aproximadamente R$ 3,4 milhões.
Na época, Flávio afirmou que os recursos utilizados eram provenientes de atividades empresariais e da advocacia.
“A quitação da dívida com o BRB só comprova que o banco não me emprestou dinheiro por causa de meus olhos verdes, mas sim porque eu tinha capacidade de honrar com os pagamentos”, afirmou o senador em 2024. Ele acrescentou que os recursos eram lícitos e fruto de seu trabalho como empresário e advogado.
O BRB afirmou à época que seguia os procedimentos de controle interno, gestão de riscos e prevenção à lavagem de dinheiro. Uma ação popular que questionou as condições do financiamento chegou a ser julgada improcedente, e decisões posteriores também não reconheceram irregularidade na concessão do crédito com base nos elementos analisados naquele processo. A nova apuração da Polícia Federal é posterior a essas decisões.
Segundo a reportagem do O Globo publicada neste sábado, o relatório mais recente do Coaf relaciona também movimentações do escritório de advocacia à quitação do imóvel, ponto que deverá ser analisado pelas autoridades dentro do conjunto de documentos financeiros reunidos na investigação.
Relação com Willer Tomaz também é investigada
As apurações envolvendo Flávio avançaram paralelamente às investigações sobre Willer Tomaz, advogado e empresário com quem o senador reconhece manter amizade.
Dados obtidos pela Polícia Federal apontam que Tomaz movimentou cerca de R$ 130 milhões em uma conta em apenas três meses de 2025. Em outra frente, informações da Receita Federal e do Ministério da Fazenda mostram que o advogado depositou mais de R$ 258 milhões na plataforma de apostas Blaze ao longo daquele ano e movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas, incluindo reapostas sucessivas do mesmo dinheiro.
A defesa argumenta que o volume total de apostas não corresponde a dinheiro novo, porque inclui valores ganhos e novamente apostados. Também afirma que os recursos são lícitos, compatíveis com os rendimentos declarados e informados à Receita Federal.
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda apontou falhas nos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro da Blaze em relação às operações de Tomaz e recomendou medidas administrativas contra a empresa. O documento não conclui que tenha ocorrido lavagem, mas afirma que as movimentações deveriam ter provocado análises de risco mais aprofundadas.
Filme sobre Jair Bolsonaro também entrou na investigação
Outra frente envolve o financiamento de Dark Horse, filme inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República apuram repasses que chegaram a US$ 12,33 milhões para um fundo nos Estados Unidos relacionado ao financiamento da produção. Flávio já afirmou que pediu recursos para o projeto, mas nega qualquer operação ilegal.
Um relatório de inteligência financeira também registrou uma transferência de R$ 1 milhão feita por um ex-marqueteiro da campanha de Flávio à produtora responsável pelo filme. O documento não indicou, naquele momento, a finalidade específica do pagamento.
As movimentações passaram a ter maior repercussão durante o segundo turno presidencial, depois de Lula desafiar Flávio a autorizar a abertura de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Flávio afirmou durante o debate da Band que não tinha nada a esconder, mas não aderiu ao procedimento proposto pelo adversário.
O novo relatório do Coaf deverá ser analisado dentro das investigações em andamento no Supremo. Até este sábado (24), não havia denúncia criminal ou condenação decorrente especificamente das movimentações de R$ 1,3 milhão citadas no documento revelado pelo O Globo.
Frase-chave foco: Coaf Flávio Bolsonaro
Palavras-chave secundárias: Flávio Bolsonaro, Coaf, mansão de Flávio Bolsonaro, escritório de advocacia, Willer Tomaz, Polícia Federal, lavagem de dinheiro
Categoria: Política
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Alt text: Flávio Bolsonaro durante atividade pública em meio a investigações sobre movimentações financeiras.
