Saúde

No Dia Mundial do AVC, médico brasileiro destaca campanha “Cada Minuto Conta”

Foto: Acervo pessoal | globe 40 | Divulgação

José Guilherme Caldas reforça a importância de reconhecer rapidamente os sintomas.

Foto: On Board 360º | divulgação

O tempo que separa o aparecimento dos primeiros sintomas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) do atendimento médico pode interferir diretamente nas possibilidades de tratamento e recuperação. Nesta quinta-feira (29), Dia Mundial do AVC, o médico José Guilherme Mendes Pereira Caldas, professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), chama a atenção para o reconhecimento precoce dos sinais da doença e leva para além dos hospitais uma mensagem que também acompanha sua trajetória na vela oceânica: “Cada Minuto Conta”.

A campanha estará presente a partir de domingo (1º) em uma das principais regatas transatlânticas em solitário do mundo. O Barco Brasil Class40 151 larga de Saint-Malo, na França, para a Route du Rhum – Destination Guadeloupe, com o velejador belga Gaëtan Thomas no comando e uma parceria com a France AVC. A prova tem percurso oficial de 3.542 milhas náuticas, aproximadamente 6.560 quilômetros em linha direta até Pointe-à-Pitre, em Guadalupe. A largada está marcada para 13h02 no horário local.

A associação entre medicina e tempo encontra respaldo nos números. O Global Stroke Fact Sheet 2025, da World Stroke Organization (WSO), estima que 11,9 milhões de pessoas sofreram um AVC em 2021 e 7,3 milhões morreram em consequência da doença. Naquele ano, 93,8 milhões de pessoas viviam com histórico ou consequências de um AVC, enquanto a carga global chegou a 160,5 milhões de anos de vida saudável perdidos por morte ou incapacidade.

Entre 1990 e 2021, o número absoluto de novos casos cresceu 70%, as mortes aumentaram 44% e a quantidade de pessoas vivendo após um AVC avançou 86%. A WSO estima ainda que uma em cada quatro pessoas com mais de 25 anos terá um AVC ao longo da vida.

Embora a incidência seja maior com o avanço da idade, o problema não se restringe à população idosa. Dados globais apontam que mais de 16% dos AVCs anuais ocorrem entre pessoas de 15 a 49 anos.

Reconhecer os sintomas pode mudar o tratamento

José Guilherme Caldas é chefe do Serviço de Neurorradiologia Intervencionista do Hospital das Clínicas da USP e atua em procedimentos endovasculares, pesquisa e formação de especialistas. Na prática médica, acompanha justamente uma das áreas que mais avançaram no tratamento do AVC nas últimas décadas.

O AVC pode ocorrer pela obstrução de uma artéria cerebral, no chamado AVC isquêmico, ou pelo rompimento de um vaso sanguíneo, na forma hemorrágica. Em 2021, o tipo isquêmico respondeu por 65,3% dos novos casos registrados globalmente.

Nos casos selecionados de AVC isquêmico, medicamentos trombolíticos podem ser utilizados para dissolver o coágulo nas primeiras horas depois do início dos sintomas. Outro avanço foi a trombectomia mecânica, procedimento realizado por cateter para retirar obstruções de grandes artérias do cérebro.

Em determinados pacientes, exames de imagem permitem indicar a trombectomia mesmo várias horas depois do início do quadro. Isso, porém, não significa que seja possível esperar: quanto mais cedo o paciente chega a um serviço preparado para diagnóstico e tratamento, maiores são as possibilidades de intervenção.

Hipertensão arterial permanece entre os principais fatores de risco modificáveis. Diabetes, tabagismo, colesterol elevado, obesidade, sedentarismo e alterações cardíacas, como fibrilação atrial, também estão associados à ocorrência da doença.

“VÁ DE SAMU”

A campanha “Cada Minuto Conta” utiliza o método “VÁ DE SAMU” para facilitar a identificação dos principais sinais de alerta:

• VA – Visão alterada: perda súbita da visão ou embaçamento.
• DE – Desequilíbrio: tontura repentina ou dificuldade para caminhar.
• S – Sorriso: boca torta ou assimetria facial.
• A – Abraço: fraqueza ou perda de movimento em um dos braços.
• M – Mensagem ou música: dificuldade para falar ou compreender frases.
• U – Urgência: ligar imediatamente para o SAMU, pelo número 192.

Mesmo que os sintomas desapareçam em poucos minutos, a orientação é procurar atendimento de urgência. O episódio pode representar um ataque isquêmico transitório (AIT), que funciona como sinal de alerta para a possibilidade de um AVC.

A campanha global da World Stroke Organization para o Dia Mundial do AVC de 2026 também adotou o conceito “Every M1nute Counts” e concentra a mobilização de 29 de outubro na identificação rápida dos sintomas e na procura imediata por atendimento.

Da medicina à vela oceânica

A relação de José Guilherme Caldas com o mar começou ainda na infância. Nascido em Angola, começou a velejar aos 9 anos no Mussulo, ilha próxima a Luanda. Aos 15, deixou o país com a família durante a guerra civil e veio para o Brasil.

Estabelecido em Vitória (ES), formou-se em Medicina e construiu carreira na neurorradiologia. Em 2005, decidiu retornar a Angola pelo mar. A travessia de 31 dias originou o livro “Mussulo, um abraço à vela”.

Sua relação com o país de origem também avançou pela universidade. José Guilherme participou da construção de uma parceria acadêmica entre Angola e a USP que possibilitou a formação de aproximadamente 30 profissionais angolanos em neurorradiologia.

Atualmente, além de professor livre-docente do Departamento de Radiologia da USP e chefe do Serviço de Neurorradiologia Intervencionista do Hospital das Clínicas, é coordenador médico do Hospital Sírio-Libanês e presidirá o Congresso da Federação Mundial de Neurorradiologia Intervencionista e Terapêutica (WFITN), previsto para o Rio de Janeiro em 2028.

Uma volta ao mundo com a mensagem do AVC

Na vela, José Guilherme conquistou ao lado de Luiz Bolina o título da categoria Sharp da Globe40 2025/2026, regata de volta ao mundo disputada em duplas.

A campanha de conscientização acompanhou a embarcação durante a competição e deu nome ao projeto “Cada Minuto Conta”. A experiência também originou um livro e um documentário, cuja produção audiovisual teve exibições para convidados durante a 53ª Semana Internacional de Vela de Ilhabela, em Ilhabela (SP).

Agora, a mensagem atravessará novamente o Atlântico.

Na Route du Rhum, o Barco Brasil será comandado por Gaëtan Thomas. A competição é realizada em solitário e liga Saint-Malo a Pointe-à-Pitre desde 1978. A edição de 2026 terá seis classes de embarcações, entre elas a Class40.

Na França, a campanha passa a atuar em associação com o Fonds de dotation France AVC, organização voltada a ações relacionadas à pesquisa, inovação e apoio a pacientes e familiares. Parte dos recursos arrecadados pela iniciativa será destinada à entidade.

“José Guilherme e Luiz Bolina levaram essa causa ao redor do mundo. Agora, continuo essa história na França. Um skipper belga, um barco brasileiro e uma mensagem que é universal: cada minuto conta”, afirmou Gaëtan Thomas.

A Route du Rhum larga no domingo (1º), às 13h02, de Saint-Malo. Gaëtan estima completar a travessia a bordo do Barco Brasil entre 15 e 20 dias. O percurso oficial até Pointe-à-Pitre tem 3.542 milhas náuticas — cerca de 6.560 quilômetros em linha direta — e será disputado integralmente em solitário.

Sobre o Barco Brasil

O Barco Brasil é um projeto de vela oceânica formado por José Guilherme Caldas e Luiz Bolina, com atuação em competições internacionais, formação de velejadores e conscientização sobre o Acidente Vascular Cerebral (AVC).

José Guilherme Caldas é professor livre-docente do Departamento de Radiologia da Universidade de São Paulo (USP), chefe do Serviço de Neurorradiologia Intervencionista do Hospital das Clínicas da USP e coordenador médico do Hospital Sírio-Libanês. Luiz Bolina atua como professor de wingfoil e vela oceânica, além de realizar atividades de day charter.

O projeto mantém quatro embarcações: Barco Brasil Class40 151, Mussulo 50, Tutatis e HPE25. Entre seus próximos objetivos está a capacitação de tripulantes brasileiros para competições oceânicas e para a Globe40 de 2028/2029.

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