Política

Trump questiona eleição brasileira sem apresentar provas; Itamaraty já havia criticado interferência externa

Donald Trump (Foto: Daniel Torok/The White House/Wikimedia Commons — Domínio Público/Divulgação)

Presidente dos Estados Unidos disse que pleito “pareceu fraudado”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou em dúvida nesta segunda-feira (26) a eleição presidencial brasileira sem apresentar qualquer prova de fraude ou irregularidade capaz de alterar o resultado. A declaração foi feita um dia depois de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ser reeleito presidente da República, com mais de 4,4 milhões de votos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL).

“Eu não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada”, afirmou Trump a jornalistas. “Para mim, pareceu muito ruim.” Segundo a Reuters, o presidente norte-americano não apresentou evidências para sustentar a acusação.

Trump também afirmou que gosta de Lula e que mantém uma boa relação com o presidente brasileiro.

“Eu não governo o Brasil. Eu governo os Estados Unidos. Gosto do Lula. Me dou muito bem com ele”, declarou.

A fala ocorre depois de Flávio Bolsonaro se recusar a reconhecer a derrota e anunciar que questionaria judicialmente o resultado. Trump também criticou a prorrogação do horário de votação determinada no domingo (25) pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Resultado foi proclamado pelo TSE

O Tribunal Superior Eleitoral confirmou a reeleição de Lula ainda na noite de domingo. O presidente recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou após a apuração que as eleições foram acompanhadas por observadores nacionais e internacionais, que tiveram acesso aos procedimentos de votação, auditoria e fiscalização.

“A presença desses observadores amplia a transparência do processo eleitoral e permite que a experiência brasileira seja examinada por instituições independentes”, afirmou Nunes Marques.

O próprio TSE informou que 499.248 urnas foram utilizadas no segundo turno e apenas 1.551 precisaram ser substituídas, o equivalente a 0,31% do total.

Prorrogação não alterou dimensão da vantagem

A extensão do horário de votação das 17h para as 19h é um dos argumentos utilizados por Flávio Bolsonaro para contestar o pleito.

A decisão de Zanin, entretanto, valeu apenas para locais onde a votação ainda não havia sido encerrada às 17h. Urnas que já haviam sido fechadas não puderam ser reabertas, segundo esclarecimento oficial do TSE.

Dados do Tribunal analisados pela CNN Brasil mostram que cerca de 34 mil eleitores votaram depois das 17h. A maior parte desses votos foi registrada nos primeiros cinco minutos após o horário originalmente previsto para o encerramento. Lula venceu por mais de 4,4 milhões de votos.

A Folha também informou que pedidos de extensão do horário haviam sido apresentados pelas duas campanhas durante o domingo, embora Flávio Bolsonaro tenha passado a contestar a medida depois da votação.

Itamaraty já havia criticado interferência dos EUA

Até a publicação desta reportagem, o Itamaraty não havia divulgado manifestação específica sobre a fala de Trump desta segunda-feira.

Cinco dias antes da eleição, porém, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já havia criticado a participação de integrantes do governo norte-americano no debate eleitoral brasileiro.

“Olha, tomaram parte, tomaram um lado, fizeram fotografias”, afirmou Vieira em entrevista publicada na quarta-feira (21).

O chanceler também defendeu que decisões sobre o futuro político brasileiro cabem aos próprios eleitores.

“O mais importante é a defesa do sistema brasileiro, é o povo brasileiro. Os brasileiros é que vão mostrar o que querem fazer nas urnas, que modelo estão procurando, o que consideram que é interferência, o que é intromissão e o que não é”, declarou.

Na mesma entrevista, Mauro Vieira resumiu a posição que atribuía à diplomacia brasileira diante de pressões políticas externas: “Em uma democracia, você não ameaça. Você dialoga, conversa, negocia.”

Governo dos EUA havia indicado que respeitaria resultado

A declaração desta segunda-feira também contrasta com uma posição apresentada pelo governo norte-americano em agosto. Na ocasião, o Departamento de Estado informou que os Estados Unidos respeitariam a escolha feita pelos brasileiros em eleições “livres e justas”.

Segundo a Folha, o Departamento de Estado chegou a preparar uma manifestação sobre a eleição de domingo, mas decidiu adiar sua publicação após Flávio Bolsonaro contestar o resultado.

A afirmação de Trump sobre suposta fraude não veio acompanhada, até o momento, de documento, perícia, relatório de observadores ou dado eleitoral que indique manipulação do resultado.

O TSE proclamou a vitória de Lula no domingo (25), e a Justiça Eleitoral mantém como resultado oficial os 64,2 milhões de votos recebidos pelo presidente contra 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro.

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